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quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Novamente: QI, talento e gênio

QI é a base quantitativa da inteligência [planície]

Inteligência é aprender que é memorizar ou copiar certos assuntos ou habilidades.

Talento é a presença de um conjunto significativo de habilidades mais circunscritas a um determinado domínio ou mais generalizado, embora seja improvável que possa ser de natureza universal ou absoluta [presença de terreno acidentado]

Talento é aprender que é a memorização ou cópia perfeccionista de um determinado assunto ou habilidades.

A base criativa é divergir, investigar, analisar, criticar, combinar...

Gênio é a expressão final do talento que não é apenas memorizar ou copiar um determinado assunto ou habilidades, mas expandi-los.

O talento e o gênio geralmente se correlacionam com o perfil desequilibrado, o que pode explicar por que o talento pode estar mais relacionado a autismo ou transtorno bipolar.

Alto QI geral é como um platô, ou uma planície mais alta, que pode ter pontos mais altos ou não..

E mesmo no caso de QI comparativamente menor aos valores mais altos, ainda é possível, de acordo com essa metáfora, que alguns ''picos'' ou ''áreas mais elevadas'' alcancem o teto máximo.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Fases do artista [ e não apenas dele], do talento, e a diferenciação entre o artista// profissional "ruim" e o "excelente"

Por causa da natureza mais livre do artista, e de sua profissão, que é primordialmente existencial, a tolerância por profissionais "ruins" neste meio costuma ser muito mais comum e mesmo lógica, o oposto no caso da medicina = médicos ruins, por exemplo. 


Fase eufórica ou euforia primária, a ''revelação':


descobre uma possível vocação e busca por sua originalidade.

Independência intelectual


Fase autoconsciente ou autoconsciência secundária, o desenvolvimento: 

O período primariamente eufórico da auto-descoberta passa e agora o artista ou profissional precisa compreender as suas limitações, possibilidades ou/de estilos. 

honestidade e humildade intelectual 


O artista "ruim" (mas também o profissional ruim) não consegue chegar à, digamos, maturidade do seu talento, terminando ou concluindo-se na euforia primária da auto-descoberta, na fase adolescente, acreditando ter completado todo o ciclo de desenvolvimento que o faria melhorar, lógica e esperadamente falando, a qualidade do seu talento.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Humildade intelectual atiça o aperfeiçoamento [Da não-série: ''se já não falei'']

Independência intelectual = desejo pela originalidade ou ao menos por destaque pessoal;

Honestidade intelectual = autoconhecimento inicial generalizado (sabedoria) ou localizado (talento), quer conhecer melhor a si mesmo, defeitos, desafios e qualidades.

Humildade intelectual = autoconhecimento [constante] visando o autoaperfeiçoamento constante, em contínuo trabalho de farejar pelos próprios defeitos ou insatisfação com as próprias realizações buscando melhorá-las.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Em resumo rápido: Malcolm Gladwell errou ao dizer que...

... todo mundo, se praticar ''10.000 horas'', irá atingir ao nível ''master'', de ''expert''. Primeiro porque não é todo mundo que é capaz de dedicar muitas horas do seu tempo focado em algumas atividades ou ideações em relação a certos assuntos, como eu faço em relação à psicologia, principalmente. 

No entanto, ele não errou, ainda que ache que não foi o primeiro a ter percebido, quanto à necessidade imperiosa da ''obsessão' tanto para o talento quanto para o gênio, isto é, de se dedicar horas ''a fio'', ou como eu gosto de falar, de maneira natural/pós-obsessão rígida, para atingir ao nível ''master'' na área 'escolhida', ou de começar a ter insights.

Eu já escrevi alguns textos, e nomeadamente dois [aqui e aqui], refutando o escritor mas também endossando a parte em que ele foi feliz.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Conscienciosidade, abertura para a experiência e relação com talento

Conscienciosidade é o traço de personalidade de ser cuidadoso, ou vigilante. Consciência implica um desejo de fazer uma tarefa bem. Pessoas conscienciosas são eficientes e organizadas em oposição a relaxada e desordenada. Eles exibem uma tendência a mostrar auto-disciplina, a agir obedientemente, e visam a realização; Eles exibem um comportamento planejado e não espontâneo; E eles são geralmente organizados e confiável. Eles têm um córtex cingulado anterior (ACC) mais funcional do que a pessoa média [que estranho, sempre li que o ''córtex cingulado'' seria mais ativo entre aqueles que se definem como ''liberais/esquerdistas'' de acordo com vários estudos sobre neuro-políticas, alguns que postei aqui]. Manifesta-se em comportamentos característicos tais como ser limpo e sistemático; (1) A consciência é um dos cinco traços do Modelo de Cinco Fatores da personalidade e é um aspecto do que tradicionalmente se chamou de " tem caráter. Pessoas conscientes são geralmente trabalhadoras e confiáveis. Eles também são provavelmente conformistas. [2] Quando levados ao extremo, eles também podem ser "workaholics", perfeccionistas, e compulsivo em seu comportamento. 

[3] As pessoas que obtêm pontuação baixa na conscientização tendem a ser descontraídas, menos orientadas para metas e menos impulsionadas pelo sucesso; Eles também são mais propensos a se envolver em comportamento anti-social e criminal

Pouca conscienciosidade + muita abertura para a experiência = vulnerabilidade para o sub-talento, excesso de originalidade, falta de fundamento ou desenvolvimento lógico/perfeccionista.

Muita conscienciosidade + muita abertura para a experiência = combinação ideal para a criatividade [lógico-divergente ou transcendente] de alta qualidade ou perfeccionista*

Muita conscienciosidade + pouca abertura para a experiência = o oposto dos esquerdistas, em média.

Vamos lá, ainda que existam pessoas talentosas/e organizadas que tem aderido à ideologia de esquerda, na mesma, tem sido muito comum encontrarmos o tipo ''sub-talentoso'', nas artes em geral, especialmente, mas também nas ciências e em outras áreas, e que coincidentemente ou não se definem como esquerdistas.

Arquitetura ''moderna''* [nem todas é claro que serão feias]

''Arte'' moderna* [a maioria que é terrivelmente estúpida]

''Filosofia'' moderna* [que eu já falei, a famosa verborragia sem sentido]

''Política''* ''Ciência''**

Em quase todas elas existe um fator em comum, unindo-as: falta de perfeccionismo, seja em relação à consciência estética, no caso das artes ou da arquitetura, seja em relação à compreensão factual, no caso da ciência e da filosofia, ou mesmo em relação à comunhão de ambas, no caso da ideologia.

Ou é o quadro rabiscado que ''passa'' como obra de arte, desprezando totalmente o ideal de beleza/simetria ou mesmo de ordenamento esteticamente agradável que as artes [visuais] exigem.

Ou é aquele ''trabalho acadêmico'' ''pós-moderno'' de algum rincão obscuro das humanidades que além de não contribuir em nada para a sociedade [na verdade, o oposto é o mais provável] ainda se destaca por sua pretensão verborrágica de profundidade intelectual ou pura e simplesmente por ser uma porcaria.

Onde quer que a mão da esquerda toca, parece que transforma a idealidade em sub-idealidade e eu tenho por mim agora que a culpa talvez [também] seja essa combinação de 'falta' de conscienciosidade, especialmente em uma de suas facetas: perfeccionismo, que é de extrema intimidade com o talento, excesso em abertura para a experiência e pior, combinado com um igual excesso psicoticismo. 

Um indivíduo que é arrogante, presunçoso, desafiador, manipulador, pouco consciente, pouco caprichoso e ainda por cima tem um fraco por apofenias... é mole*

Portanto o fator conscienciosidade parece ser essencial para o talento, claro, se for combinado com ''abertura para a experiência'' acima da média. Acho que Bruce Charlton já deve ter comentado sobre isso, se me lembro bem, só que apenas em relação ao gênio e parece que, combinado com psicoticismo. 

A minha proposta é de maior abrangência e necessidade desta combinação não apenas em relação ao gênio mas também a qualquer tipo de talentoso, e claro, desde as expressões de talento mais insulares até às mais generalizadas. 

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Conjugação motivação intrínseca e talento. Como identificar um "estupido universal", uma pessoa comum e um talentoso??

Não sei se já comentei sobre isso mas vamos lá 

Resolvi me concentrar apenas nos tipos mais evidentes ou marcantes

Motivação intrínseca (proxy para especialização) x versus nível de talento


Tipo 1: motivação intrínseca mediana x talento mediano 


A maioria das pessoas dependendo do país [mas, geralmente todos ou a grande maioria]

Tipo 2: motivação intrínseca alta x talento baixo

O famoso ''estúpido'' [estúpido universal] que está provido de déficits severos em autoconsciência/meta-cognição.

Neste grupo ainda podemos encontrar aquele que, parece, concentrar-se em suas forças só que também as exagera, resultando em uma espécie de pseudo-talento baixo, isto é, transformando as forças em fraquezas, justamente por causa da deficiência em meta-cognição. E também teremos aquele que de fato confunde as suas fraquezas com as suas forças, denotando níveis ainda mais severos de autoconhecimento/auto-entendimento, o famoso ''cantor de chuveiro'' que resolve passar vergonha em programas de tv especializados, geralmente em relação à qualidade do canto.

Tipo 3: motivação intrínseca baixa x talento alto

O ''talentoso [em potencial] preguiçoso''

Este também pode ser um caso de baixa autoconsciência/meta-cognição porque existe a necessidade da reciprocidade, ou não, em relação à potencialidade que de fato possa ser muito desenvolvida, de maneira que, também é possível e esperado que alguns [ou talvez muitos] indivíduos sejam mais de um tipo, por exemplo, sendo ''preguiçoso' ou 'sem ter conhecimento'' quanto a um real potencial de desenvolvimento e no entanto com foco naquilo que não tem muito talento ou mesmo que definitivamente não o tem. Exemplo, um compositor fraco mas que se tivesse maior interesse conseguiria se tornar um ótimo instrumentista, claro, partindo da lógica que este tipo de conjugação não seja apenas possível de existir mas que também não seja muito rara.

Ainda poderia pensar no tipo ''motivação intrínseca alta x talento mediano'' para explicar aquele que acaba se tornando muito focado em um assunto ou tarefa, mas que não consegue ir além, limitando-se, a priore, à sua memorização superficial. Como sempre o bom senso [intrapessoal] delimitará a fronteira entre saber e não saber os próprios limites.



sábado, 13 de maio de 2017

Humildade e honestidade intelectual específica ou talento, generalizada ou sabedoria

Seja em relação às artes, às ciências ou apenas a um trabalho técnico específico, o diferencial entre o talento e a sabedoria encontra-se em seu nível de insularidade ou de generalidade. Se aquilo que faz em particular em termos de cuidado, dedicação e talento, for expandido, se tornando generalizado, então estará, talvez, sem saber, caminhando para a sabedoria, que como eu já comentei, se consiste na generalização da criatividade e da inteligência, em cada ação. O sábio busca ser inteligente e/ou criativo em tudo aquilo que lhe interessa, em toda gama de comportamento 'humano", enquanto que o artista "comum" ou "característico", geralmente o faz de modo muito específico ao seu trabalho. A consciência estética geralmente torna-se hegemônica no mundo das artes enquanto que é nas ciências que a compreensão factual [específica e técnica, geralmente] tende a  reinar sobre a beleza, ainda que sejam totalmente complementares. Em um mundo ideal a filosofia faria o trabalho de apresentar a busca pela beleza/simetria ou consciência estética à busca pelos fatos ou compreensão factual. Ainda que tanto o artista quanto o cientista acabem também buscando por aquilo que tendem a ver como secundário, isto é, o cientista ainda busca pela beleza e o artista ainda busca por fatos, é na construção final do pensamento ou raciocínio que toda a verdade sobre uma particularidade se revelará mais completa. Todas as virtudes ou benignidades (traços construtivos de personalidade) e mesmo aqueles que podemos chamar de contextualmente aliáveis (quando existe a necessidade de uma prática maligna mas com fins benignos, geralmente com o intuito de bloquear e mesmo de eliminar o agente maligno), para a maioria dos talentosos, de fato, tendem a se manifestar de maneiras: particulares, condensadas com malignidades e muitas vezes desviantes de finalidades benignas. O sequestro da razão ou de parte dela com o intuito da irracionalidade ou do espectro da destruição. 

A honestidade e a humildade intelectual que são duas características benignas que tendem a compor ou a se manifestarem de maneira mais intensa entre os mais sábios, encontrar-se-ão  extremamente auxiliares para a generalização da inteligência ou sabedoria. 


Não basta estar em um alto nível, tanto qualitativo quanto quantitativo, em termos cognitivos, se não for intelectualmente honesto, para não se enganar, e humilde, para aceitar os próprios defeitos, erros ou limitações, seja em relação à especificidade que geralmente define a ''inteligência' e a criatividade, seja em relação à generalidade que tão bem caracteriza a sabedoria bem como também a sua supremacia sutil porém onipresente e onipotente. 

Portanto, quando ambas se especificam para certo conjunto limitado de atividades, geralmente de natureza técnica, então podemos denominar de ''talento'' ou ''potencial''. Em compensação quando se generalizam, em relação a quase todas as atividades, então podemos chamar de ''sabedoria'' ou ''potencial para a sabedoria''. Este é o grande diferencial que separa o sábio do ''comum'', o primeiro se generaliza quanto à sua inteligência, especificamente a analítica, e também a sua consciência estética/ de julgamento, enquanto que o segundo quase sempre termina por assimetrizar o uso de suas capacidades gerais psico-cognitivas ou inteligência, usando-as com maior afinco naquilo que é bom. E lembrando que uma das manifestações mais genuínas de inteligência é justamente quando aceitamos que não sabemos, que temos limitações sobre certa particularidade intelectual ou que desistimos de prosseguir em terreno perpetuamente desconhecido [pra nós]. Ao invés de esbanjar inteligência, mesmo onde não tem, o sábio sabe quando, onde fazê-lo e muitas vezes de maneira detalhista. 

domingo, 1 de janeiro de 2017

O paradoxo da criatividade resolvido?? Consciência da própria distração = perfeccionismo

Quando sabemos que somos mais distraídos e temos consciência de que precisamos fazer as coisas certo para que a distração não destrua tudo, é onde o perfeccionismo pode surgir...

Não basta ser apenas mais distraído...
Não basta ser apenas mais consciente das próprias ações...

  Em partes isso também se dá por causa da constante impressão de ''auto-normalidade'' que tende a monopolizar as mentes mais comuns, fazendo que com reduzam de maneira considerável a ideia de estarem ''fazendo algo de errado'', se já estão adaptadas... nada poderia ''estar errado''... enquanto que para quem já nasce com desafios próprios para se encaixar dentro das ''normas' a criatividade pode brotar também a partir desta assimetria.  

Não é a toa que os mais narcisistas costumam ser também dos mais relaxados em relação a si mesmos, de maneira que, a maioria daqueles que identificamos como os mais narcisistas, que estão sempre investindo em novos cortes de cabelo e nos dias de hoje, cirurgias plásticas, NA VERDADE não o são, justamente por demonstrarem grande insegurança em relação às suas próprias aparências. O narcisista mais característico se ama de maneira contorcidamente exagerada acreditando ser o ápice da perfeição. 

Pode-se dizer que este tipo de narcisismo [menos característico] e portanto, naturalmente mesclado à insegurança sobre si mesmo, a nada mais seria do que a manifestação dos mesmos fermentos, ainda crus, que produzem o talento [de outras áreas, menos fúteis] e o gênio, pois tem-se aí a conjugação: insegurança ou consciência, mais ou menos factual, dos próprios defeitos + narcisismo parcial, amor próprio e portanto vontade de melhorar. Talentosos e geniais se diferem dos narcisos comuns e potencialmente equivocados exatamente em dois aspectos essenciais: compreensão factual e consciência estética ou ''bom gosto''. Ao saberem melhor sobre si mesmos, mesmo que de modo mais particular, assim como também em relação às suas áreas de fixação, talentosos e geniais serão mais capazes de se melhorarem tanto a nível introspectivo (micro-introspectivo, no caso do talento ao gênio localizado) quanto a nível extrospectivo, se terão melhor e mais objetiva compreensão factual e consciência estética, capturam fatos em suas áreas, melhor e mais preciso/objetivo que os outros, e percebem, mesmo que a nível subconsciente, que os mesmos são regidos pela lógica e a lógica só pode ser trabalhada a partir de leis parcimoniosas de interação, do contrário o caos é o mais provável de acontecer. 

Sim, ser distraído e mais auto-consciente é praticamente meio caminho andado para se tornar mais criativo, ao menos o ''little-c'', porque muitas vezes a hiper-perceptividade se manifestará com base ou a partir desta conjugação. 

Para saber onde é que se está errando, seja a nível mais específico ou mais generalizado, há de se ter o mínimo de autoconhecimento, como eu já falei em relação ao talento. E como uma hiper-perceptividade tende a relacionar-se com maior distração, distração especialmente aos olhos mais comuns, mas também de uma maneira mais generalizada (por exemplo, o gênio desastrado ou desconjuntado), e porque como há muito mais com o que ser visto, mesmo aquilo que é considerado ''irrelevante'', para os que forem menos perceptivos, então podemos perceber que reside aí uma relação, eu não sei se poderia denominar ''causal'', mas com certeza muito forte e para muitos paradoxal, entre criatividade, distração e perfeccionismo. O perfeccionista típico, talvez, ou o mais atípico, seria portanto aquele que se torna mais atento e potencialmente preciso, e isto se consiste justamente em uma reação progressivamente preventiva quanto à sua própria tendência de distração, um paradoxo. É portanto pela consciência precisa ou proporcionalmente correta dos próprios defeitos, algo, diga-se, que me parece ser muito raro, que se começa a ser perfeccionista, de modo pontual ou generalizado.

Os criativos tendem a ser em sua maioria de distraidamente concentrados. Primeiro aparece a distração provocada por uma hiper perceptividade, que percebe ''tudo'', inclusive ou especialmente aquilo que os outros acham ''irrelevante'', e acaba ganhando o rótulo parcialmente ingrato de ''distraído''. No entanto, quando se percebe que suas tendências distrativas tendem a fazê-los cometer condutas inapropriadas, universalmente características de distração, então haverá um quê de objetividade na ''distração do criativo''. A mente errante do criativo, como eu já falei, na metáfora do poço de petróleo, uma hora irá parar em algum ''lugar'' e começar a ''cavar'', se aprofundar, até ao ponto em que começará a ter insights ou novas possibilidades combinatórias de ideias, teorias 'ou'' hipóteses, pensamentos, enfim... A partir de então se torna mais concentrado, em seu novo ''brinquedo'', em sua nova ''brincadeira''. 

Em alguns deles apenas a área de interesse constante que se tornará alvo de aprofundamento enquanto que para outros, em especial se suas áreas de aprofundamento já forem naturalmente mais holísticos, a filosofia por exemplo, esta busca pela perfeição ressoará em muitas outras áreas que estão interligadas ao epicentro [holístico] de maior interesse ou epicentro.

Portanto a consciência estética, da beleza, da simetria, da harmonia, que é basicamente a verdade da existência, inegável que vivamos em sistemas excepcionalmente perfeccionistas, ainda que perfeição não seja o mesmo que eternidade, ao manifestar-se de modo mais específico resultará do talento ao gênio, e neste caso o que diferenciará o talentoso do genial será o nível de obsessão e/ou autenticidade/empatia total em relação ao objeto ou área de interesse, se o gênio seria um entrega total/empatia total ao seu objeto de escrutínio intrinsecamente motivado enquanto que o talento seria uma entrega bem mais parcial, ainda que muito característica em sua ''metade'' de entrega ou de autenticidade.

Ao percebermos que somos mais distraídos podemos ou tenderemos a nos tornar mais atentos ao fazermos as coisas, e esta consciência ou medo de cometer erros tolos a de grande magnitude, pode ter uma relação com o perfeccionismo, no talento e no gênio. 

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Criatividade: entre o estúpido e o talentoso...

Costuma-se pensar que  existe uma espécie de hierarquia crescente entre talento e gênio em que o segundo com certeza perpassará o primeiro. Mas gráficos e comparações qualitativas são abstrações e podem apresentar muitas perspectivas e portanto hierarquias potencialmente corretas e diversamente discrepantes entre si. Eu pensei em uma nova maneira de ver o criativo, especialmente o gênio criativo e não será, é claro, como um ser superior ao talentoso mas paradoxalmente inferior. O talentoso emula com perfeccionismo ou busca fazê-lo em relação às criações ou produtos de gênio. Mas o gênio mesmo tende a se destacar mais por seus saltos perceptivamente divergentes do que por seu próprio talento e isso significa que muitos, é provável, que não serão nem mesmo talentosos. Esta possível realidade destroça a ideia de hierarquia somatizante em que o gênio se consistiria em um talentoso hiper-desenvolvido, isto é, uma evolução/desenvolvimento crescente, convergente de um em relação ao outro, do talentoso para o gênio. 

A partir desta perspectiva comparativa, talento se relacionaria mais com a cognição, do que com a genialidade, isto é, a criatividade, porque enquanto que o primeiro emula ou ''apreende'' as técnicas para emulação ou cópia do segundo, este apenas ou fundamentalmente cria. O epicentro conceitual da genialidade é a criatividade enquanto que o epicentro conceitual ou semântico do talento é a cópia da criatividade e percebam como que neste sentido o talento ou perfeccionismo na replicação dos produtos de gênio, geralmente de natureza artística, tende a ser bastante similar à cognição/''inteligência'' que é aplicada para o ''aprendizado'' e posterior replicação de técnicas de natureza mecanicista, fazendo o artista talentoso, mais parecido com um engenheiro talentoso, do que com um artista genial, parecido com aquela ideia absurdamente popular e que tem sido usada para fins nefastos das diferenças genéticas entre as raças ou populações humanas, em que ''um nigeriano pode ser mais 'geneticamente parecido' com um norueguês do que com outro nigeriano''.

O talento e nos seus mais altos níveis se assemelha à genialidade por razões óbvias, por tentar copiá-la. No entanto para que a criatividade possa de fato florescer parece ser necessário a existência de uma complexidade ou variedade qualitativa de capacidades individuais, isto é, que um indivíduo possa apresentar tanto excelências quanto dificuldades ou debilidades psico-cognitivas. O criativo como um ser indubitavelmente de alto risco precisa se arriscar muito mais, apesar disto não significar ''sair de sua zona de conforto'', que eu devo explicar em outro texto, mais a frente, enquanto que o talentoso tende a buscar o exato oposto, isto é, pela perfeição. A criação do gênio tende a emular o próprio processo da seleção natural em que é necessário muitos rodeios, erros e acertos para que possam emergir ideias de maior quilate. Portanto o talentoso se esforça para emular o gênio de suas paixões ou produtos preferidos, se esforça para se purificar de erros, enquanto que o criativo precisaria de grande tolerância com a falha, com o erro, pois no ato da criação, falhas parecem ser impossíveis de serem evitadas e mesmo, muitas delas podem dar cria para acertos. 

Portanto a criatividade ao nível de gênio ao invés de se consistir numa evolução logicamente somatizante dos atributos positivos dos talentosos ou emuladores perfeccionistas dos produtos de gênio, mais parecerá, a partir desta perspectiva, em uma composição psico-cognitiva paradoxalmente inferior, por encontrar-se mais próxima do estúpido do que o verdadeiro talentoso, que se localizará mais afastado.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

A fragilidade do gênio


Personalidade, motivação, perfeccionismo  versus o pragmatismo da fama ou reconhecimento sem a paixão ou talento intrínseco 




No mundo da ginástica artística, especialmente a feminina, que eu tenho tido maior contato ultimamente, dois nomes em especial parecem se sobrepor em relação a grande maioria dos principais nomes do esporte, Elena Mukhina e Ana Porgras, e eu vou explicar o porquê.


Gênio, o inalcançável



Mukhina assombrou o mundo da ginástica ao vencer alguns dos nomes mais renomados e poderosos do esporte em plena era de Nadja Comaneci, sim, ela também, no mundial de 1978. 

Uma jovem russa de olhos azuis tristes, pálida e com um sorriso tímido ganhou quase tudo aquilo que poderia ter ganho naquele mundial, "deixando no chinelo" as estrelas do seu time soviético assim como também a super star romena, a primeira a ganhar uma pontuação perfeita no esporte. Eu poderia estar falando dela, de Nadja Comaneci, como um exemplo do gênio, e talvez até possa coloca-la na mesmíssima categoria, mediante o grau de perfeição de suas performances durante o ápice de sua carreira. Mas existiu algo de especial em Mukhina que na minha opinião a fez brilhar mais do que Nadja. 

Comaneci foi um dos primeiros e muito bem sucedidos frutos de um projeto de longo prazo por parte da junta técnica romena para fabricar ginastas tecnicamente perfeccionistas e até agora tem dado excepcionais resultados. 

Ainda assim Mukhina a meu ver se destacou por causa de seu pioneirismo no nível de dificuldade na época em que competiu, a sua rápida alçada ao olimpo do esporte, justamente em uma época com tantos nomes extremamente renomados competindo, assim como também por sua derrocada ou queda abrupta, que ceifou a sua carreira levando juntamente a normalidade funcional de sua vida (ao se tornar tetraplégica depois de um acidente grave em um treino, semanas antes do início das olimpíadas de 1980 em Moscou). 

A sua personalidade e a sua motivação para uma profunda ou perfeccionista superação, a fez, mediante a minha pedante ótica, superior mesmo em relação aos grandes nomes da ginástica, por seu pioneirismo e estreia avassaladora no sênior, se destacando a frente de nomes que já haviam se consolidados dois anos antes. É como se diante de um colosso recém aclamado outro aparecesse na surdina e roubasse totalmente a cena.

Mas não foi apenas o contexto de Mukhina que foi excepcionalmente assimétrico e portanto extremamente interessante (e claro, muito trágico), do auge à ruína em pouquíssimo tempo, mas também a sua personalidade e o seu talento que a separaram de Nadja bem como também das demais. 


O perfeccionismo é um traço extremamente necessário para o talento de alto nível e nem preciso citar o gênio. E Mukhina encarnou esta realidade como ninguém naquela época, se esforçando além das circunstâncias e resultando em um desastre que ceifou o resto de sua vida. A busca frenética, imparável e constante da perfeição, especialmente em relação ao grau de dificuldade em que se arriscava, foi o diferencial, a tendência do gênio de se jogar numa roleta russa, de apostar o tudo ou nada e de pagar pra ver. Ela pagou o preço por seu transe megalomaníaco, alimentado por seu técnico matoide Klischenko, um dos facínoras (e brilhante em sua função) que reforçou a tendência proto-suicida e potencialmente genial de Mukhina de apostar alto. 

Sem a sabedoria para auxiliar e ajudar o gênio, as chances de se arriscar demais serão muito altas. Quem sabe os novos feitos que aquela ginasta russa, outrora mediana e pouco empolgada, poderia ter feito se não tivesse se acidentado terrivelmente, dando cabo de sua carreira e de seu conforto existencial??



Mukhina nao foi a ginasta de notas "10"  até porque deixou claro que sempre preferiu flertar com o perigo do pioneirismo em exercícios jamais realizados sem falar naquela que talvez poderia ser definida como a rotina de barras assimétricas mais difícil da história da ginástica. Ela também foi muito elegante em seus passes, completa em todos os aparelhos e sim, a sua ascensão e queda meteóricas, tornou-a dramaticamente interessante. A paixão pela perfeição destacou Mukhina e a lançou a um posto em que poucos e bons tendem a conquistar, o olimpo da genialidade. Ela pode não ter sido a mais genial nem a mais sábia, nem mesmo a mais perfeccionista, nem mesmo a mais elegante, ainda que tivesse esbanjado também neste componente. Mas a sua busca pela excelência em sua área e por sua ênfase com certeza, ao menos pra mim,  a colocou em um nível extremamente singular de expressão humana, direcionada para uma atividade físico-recreativa.






Enquanto que lamentamos a vida delicada que vivenciou desde o acidente bem como também a morte precoce de Mukhina, que pagou alto o preço de sua melancólica arrogância na tentativa de superação perfeccionista, um dos traços magnos do gênio ou de quem se deixa ser possuído por este estado mental, transcendental, outra ginasta que vejo como do mesmo quilate que da pobre Elena, também encantou o mundo da ginástica por sua extrema elegância artística, impecável em sua composição, esboçando a expressão pura do gênio neste aspecto específico, e que decidiu abdicar voluntariamente de uma carreira completa e potencialmente frutífera, por uma vida, até agora difícil de ser, entendida e aceita, especialmente por seus fãs mais exaltados, se tais fotos que tem viralizado em blogues especializados do mundo da ginástica, de fato, exprimem o atual cotidiano desta bela moça.

Ana Porgras teve uma carreira meteórica, como a de Mukhina, se destacando por uma elegância tão impecável em sua composição, especialmente nos seus primeiros anos como ginasta profissional, que a partir de minha ótica, a alçou ao olimpo do, por agora e talvez pra sempre, inalcançável manifestação de excelência perfeccionista.  Ana Porgras se tornou inalcançável por sua singularidade, sua imparidade de extrema qualidade, em fundamental, por seu talento artístico perfeitamente combinado com a ginástica. Algo de especial caracterizou Porgras durante a sua curta carreira, tão impressionante que arrebatou uma legião de fãs e chamou a atenção mesmo de grandes nomes do esporte, justamente aqueles que foram ofuscados pela meteórica Elena Mukhina, de décadas atrás.



Um brilho único, difícil de ser mensurado, uma mágica no ar, claro que bem reforçado por seu talento TÉCNICO. Mas foi a composição de personalidade, elegância e talento que fez tanto de Mukhina quanto de Porgras inalcançáveis e portanto geniais em suas apresentações e a posteriori realizações. Quanto de mérito que podemos dar aos seus técnicos, e no caso de Mukhina, culpa, apenas para começar, eu realmente não sei. Se foram produtos finais de uma sinergia perfeita entre técnico e esportista e portanto menos geniais na criação e mais na expressão ou representação da mesma, também não sei dizer. No entanto, a qualidade, original ou nem tanto, de ambas, foi tão acachapante e rara que é pouco provável que pudéssemos ser capazes negar-lhes a alcova de geniais. 

E em ambas, em níveis  bem distintos de qualidade (epicentro na elegância de Porgras, e de dificuldade de Mukhina), auge e tamanho da queda, todas as idiossincrasias da intensidade perfeccionista e inquieta do gênio bem como também o tipo de personalidade que tende a comporta-lo, especialmente em termos de gênio artístico e sinestésico, foram visíveis e marcantes para o desabrochar de seus talentos que tocaram por suas respectivas maneiras o céu da perfeição.



O gênio faz com paixão e sutileza perfeccionista. O competente faz desapaixonadamente.


Os geênios  sem alma e atrito perfeccionista 



Simone Biles é produto direto de um sistema que foi viciado para sempre vencer, a ginastica artística profissional americana, que de artística não tem quase nada.

Biles é tão perfeita que nem parece humana. Sorriso perfeito e séries perfeitas, mas que não são perfeccionistas. Sem maiores ambições Biles parece estar feliz com as suas séries perfeitas, diga-se, tecnicamente perfeitas. Ela é muito talentosa e mediante tamanho talento eu até poderia coloca-la ao posto de gênio técnico da atualidade. Mas tem algo nela que não é impressionante como a inalcançável beleza da elegância de Porgras ou o nível de dificuldade acoplado a uma elegância sóbria de Mukhina.


 Ela não parece ter o desejo louco de gênio de se superar. 

A formula americana é assim e até pode ser definida como sábia ainda que bastante pragmática, no país cuja alma já é capitalista. A ou o ginasta trabalha até ao ponto de sua excelência e quando chega ao teto pessoal de talento técnico para por ai, mantendo uma constância sem maiores riscos. Parece um padrão recorrente.

  Americanos sempre parecem ser muito profissionais, quase sempre polidos, com poucas chagas internalizadas em suas vidas ou aquela intensidade, aquela paixão que é bem típica do gênio ou aquele que tem potencial para esboçá-lo, mesmo que dentro de uma particularidade expressiva, no caso do esporte. 

Populares, neurotípicos, adaptados, bem estabelecidos. 

Pouca personalidade e um esbanjar de maestria no aprendizado técnico, enquanto que o gênio artístico se caracteriza pelo exato oposto, fazendo fluir e dominar a si próprio, o singular de cada indivíduo, em outras palavras, fazendo a sua singularidade lhe dominar. 

Os ginastas americanos em geral parecem lidar com a ginástica, a profissão que escolheram, exatamente como um típico burocrata, isto é, de maneira fria, desapaixonada e rotineira. Eu posso estar sendo muito generalista e preconceituoso em relação a eles, mas me passam esta impressão, enquanto que quando tem paixão relacionada à atividade escolhida, um brilho a mais é o mais provável de se manifestar e de maneira inevitável.

Por mais bem sucedidos, mais medalhas, por mais notas perfeitas possam alcançar, algo de cinza, de sem graça, sem brilho, sempre pareceu caracterizar ao menos uma importante proporção do povo americano. 

É a composição que produz o talento genuíno, que toca o gênio, e o mesmo em esportes como a ginástica artística, isto é, uma atmosfera especial, que todos podem perceber, alguns podem até negar por ''dor de cotovelo'' ou inveja, mas que existe, é único e portanto genial.


Mustafina



O gênio que se perdeu??

Aliya Mustafina, ginasta que já citei no velho blogue, assombrou o mundo da ginástica logo em seu primeiro mundial em 2010. Ela foi precoce mostrando alto nível mesmo quando ainda era muito jovem, diferente de Mukhina que foi descreditada no inicio de sua carreira. Espantou o mundo da ginástica e depois de um grave acidente mudou de postura e deixou de tirar o fôlego dos aficionados pelo esporte ainda que tivesse por contrapartida conquistado muitos fãs. Mustafina é um perfeito caso de talento técnico tipicamente americanizado, mesclado à naturalidade da qualidade de gênio ou por um potencial para esboçá-lo, e sua carreira, até agora, mais parece mostrar com fidelidade o apagar das luzes espontâneas do brilho do seu gênio e a sua brava transição para sobreviver em um mundo em que as expectativas sobre si não foram plenamente satisfeitas e o tem feito com elegância, astúcia e certa maestria. 

O gênio de Mustafina esfriou antes de atingir a todo o seu potencial ainda mais em uma profissão ingrata como é a ginástica artística. Apesar disso ela exibe juntamente com a sua colega russa Viktoria Komova os atributos de personalidade que tendem a caracterizar meios-gênios ou aqueles de menor envergadura, se comparados aos catataus do mundo intelectual, científico e/ou tecnológico.

Komova é outro exemplo de alguém dentro da ginástica que está dotada de uma personalidade intensa, perfeccionista (mas talvez não aos níveis inalcançáveis/únicos de Mukhina e Porgras) e um brilho de gênio que mostrou logo no início de sua carreira mas que também foi reduzindo a sua força com o passar do último ciclo olímpico. 

Parar cedo nos faz eternos??? O impacto da abrupta interrupção de um carreira promissora e excepcional nos impressiona mais?? 


Correlação ou causalidade. Ou são os super talentosos e geniais que são mais propensos ou vulneráveis a interromper as suas carreiras?? 

Para muitos casos o fim abrupto e precoce de um talento promissor ou mesmo ainda em sua encubação necessariamente não deseja indicar que o mesmo teria sido esplendoroso se tivesse continuado a manter-se em sua trajetória. 

No entanto me parece que para muitos outros casos de fato a precoce interrupção de suas trajetórias merece mais lamento pelo fato de ter encurtado muito cedo um potencial sem limites pré- estabelecidos, outro diferencial do gênio. 

Mukhina mostrou talento de sobra a ponto de ter "esnobado" a super star romena do momento bem como também todas as suas colegas mais famosas e bem sucedidas. Se não tivesse se acidentado miseravelmente talvez tivesse mantido neste ritmo frenético (acoplando mais dificuldades para as suas séries e foi justamente um dos novos e ousados elementos que ceifou pra sempre a normalidade de sua vida) .

O mesmo para Ana que ao longo de sua curta carreira foi mostrando cansaço crescente por causa de suas atribulações enquanto uma esportista em ascensão. Sempre se esforçando além de suas próprias forças, Ana parece ter decidido parar no meio de uma carreira que já havia causado furor no ambiente profissional da ginástica feminina. Em seu últimos anos no entanto continuou mostrando a sua famosa e amada excelência na parte artística, sua qualitativamente singular e inalcançável elegância no solo assim como também na trave e mesmo nas barras assimétricas. 

A naturalidade perfeccionista inalcançável do gênio versus o estudo meticulosamente planeado do talento 


O talento tenta sempre emular o gênio, consistindo-se em uma tentativa de cópia daquilo que foi original e único. 

Pelo fato de ter o fator artístico acoplado a si, a ginástica olímpica  precisa muito de seus aspectos, até mesmo os mais importantes para que se completar. As ginastas mais geniais (e mesmo entre os homens) não serão por lógica intuitiva aquelas com as maiores dificuldades nem mesmo as mais elegantes mas as que conseguirem combinar arte e dificuldade de maneira mais perfeita. No entanto o gênio ou a expressão do mesmo não obedece a lógica semântica de nenhum outro elemento a não ser de si mesmo. E neste aspecto, uma série de fatores únicos corroboraram para que tivesse chegado a essa conclusão no que diz respeito a ginástica artística feminina e às duas ginastas protagonistas deste texto.

Como a inteligência que é aquilo que sabemos o que é quando a vemos, mas não sabemos dizer com supra-exatidão no que se consiste, o mesmo pode ser dito sobre talento e genialidade em que apenas uma sutileza milimétrica, rarefeita porém consistente que poderá separar talento puro ou emulação perfeccionista do gênio e o próprio gênio ou superação qualitativamente perfeccionista.


De tantos nomes deste esporte extremamente difícil, politicamente enviesado (que sempre o desgraçou), uma ode à capacidade de se superar os limites de elasticidade, força e movimento do corpo humano, eu escolhi essas duas que conquistaram a minha atenção e que parecem ter causado profunda impressão também em outras pessoas, por uma série de razões subjetivas, que poderiam muito bem colocar à prova a minha afirmativa ou conclusão neste texto, de que apenas ou especialmente as duas que mereceriam repousar no olimpo do talento extremo, que toca o céu do gênio, e que até cheguei  a comentar ao longo deste texto. No entanto, algo mágico, único, singularmente especial, e com todas as adições ou circunstâncias subjetivas a seu dispor, conspiraram, ao menos ao meu ver, para ter resultado na expressão das nuances sutis, poderosas e típicas do gênio, esta composição fenotípica única, nestas duas jovens, separadas pelo espaço e tempo, ao invés de ter pensado o mesmo para tantas outras bravas ginastas (e também ginastas masculinos, alguns nomes me vieram à cabeça como o italiano Yuri Chechi, espetacular nas argolas por um bom tempo e inalcançável em relação à extrema naturalidade com que se apresentou neste aparelho). Se foram apaixonadas em seus momentos enquanto ginastas, ao mesmo nível que muitos gênios incontestáveis dos mais diversos ramos foram, eu não sei, existem algumas possíveis evidências, especialmente para a pobre Mukhina, que até poderia ter sido homenageada em algum romance russo, por sua vida, sempre sofrida e triste, com poucos momentos de alegria. No mais, os resultados ou expressões de seus esforços foram e são incomparáveis, algo que se tornou único, singular, tamanho o grau de qualidade, em sua sutileza, em sua excelência.

Algumas fotos recentes de Porgras são muito estranhas, o rosto saudavelmente belo, com feições classicamente caucásicas, parece ter se transformado em muitas faces, algumas muito vulgares e chocantes para quem já havia se acostumado com a sua beleza natural.

O gênio não é frágil apenas em relação aos que estão mais suscetíveis de serem tomados por ''ele'' ou por si mesmos, mas também em relação à sua manifestação ou expressão, por se consistir em uma originalidade extremamente nova ou numa qualidade tão única que não pode sequer ser enquadrada dentro de números frios. 

O gênio escondido e finalmente expressado de Mukhina lhe causou danos irreparáveis e que resultaram em um resto de vida bem complicado pra ela. O mesmo pode ser dito em relação ao seu fantástico técnico. 

A mesma personalidade soberba, arrogante, artística e fina que Porgras expressou, especialmente em suas belíssimas apresentações de solo, nos fazendo voltar á belle epoque de Paris e Viena, pode também estar tendo um papel em suas decisões pessoais. 

A intensidade e o potencial sem limites pré-estabelecidos de ordem qualitativa do gênio ''ou de alguém que exibe potencial raro para expressá-lo'' tende a ser sempre uma faca de dois gumes, onde brota o gênio também pode brotar a insanidade. 

Na atualidade, a ginasta islandesa Eythora Thorsdottir, ambientada na Holanda, parece expressar muitos componentes de sutilezas singulares que compõe a expressão da genialidade artística. 




sábado, 23 de abril de 2016

A diferença entre a personalidade criativa (positivamente idiossincrática) e o estado mental criativo





A relação entre inteligência intrapessoal, talento e criatividade parece ser bastante significativa. Afinal de contas para que se possa dedicar uma vida inteira no desenvolvimento de talentos pessoais  há de se ter ou de se desenvolver  plena consciência dos mesmos bem como também das próprias fraquezas (ao menos ou comumente que serão de natureza puramente cognitiva). O talento se mede não apenas pela qualidade intrínseca que dele emana mas também pelo grau de autoconhecimento para que se possa desenvolvê-lo até mesmo ao nível de gênio ainda que o mesmo tenda a ser profundamente autoconsciente em relação aos seus potenciais e especialmente os de natureza cognitiva ou intelectual, isto é, mais parece se caracterizar por um talento tão profundo, espontâneo, que se faz quase que por osmose, uma vontade difícil de ser controlada.

Eu sou um exemplo daquilo que eu estou pretendendo falar nos próximos pseudo-parágrafos, porque eu nasci incomum, positivamente idiossincrático, desviante, anormal, mas sem a chaga existencial de um criminoso natural e vulgar. E desde a muito que me percebo assim e que vivo dentro desta minha redoma não-alienante de diferença ou de singularidade. 

Mas a criatividade precisa de um estado particular da mente para que possa se manifestar e não apenas de uma correta auto-percepção de singularidade, ainda que esta seja mais do que instrumentalmente fundamental porque afinal de contas, para que se possa reconhecer as próprias idiossincrasias é necessário primeiro que se possa se reconhecer, pura e simplesmente, e é muito comum ou correlativo que os mais singulares o façam de maneira natural.


 Ninguém nasce criativo, literalmente falando. 

A criatividade (também) é o auto-reconhecimento e uso subsequentemente  direcionado de um potencial para o pensamento intuitivo avançado e produtivo.

Se nasce com um potencial biológico até mesmo para que possa ser mais facilmente reconhecido bem como também com fraquezas ou potenciais muito limitados, comparativamente falando e se forem mais salientes, tanto melhor. Todo mundo é um pouco criativo. Mas alguns serão realmente talentosos neste quesito. O talento não se manifestará sozinho sem a presença e influência da inteligência intrapessoal para  que possa direcionar estes "super poderes". 

Por uma multitude de razões eu me tornei  consideravelmente intuitivo de alguns anos pra cá. Eu sempre fui muito imaginativo, não apenas pelo potencial mas também pela motivação de se sê-lo.
Mas até então eu havia tido poucas epifanias intuitivas como as que tenho tido agora.


Desde que comecei a me dedicar mais profundamente neste "trabalho" que comecei a ter uma grande densidade de ideias criativas. O amadurecimento final do meu cérebro pode ter um papel. Eu percebo em mim uma maior facilidade para decorar as matérias escolares do que antes, e percebo esta mudança positiva quando leciono aulas particulares de curtíssimo prazo (diga-se) em casa. Eu sinto uma maior facilidade e também tolerância para fazê-lo, situação que antes era o oposto pois não havia em mim qualquer boa vontade para atender aos (des)mandos do doce, mil vezes tolo e autoritário reino da educação. 

Mas não acredito que seja apenas isto até porque, antes, eu não interpretava as minhas obsessões sadias com objetividade, isto é, que poderiam ser instrumentais para algo mais sério. Muito mais do que dedicação, as minhas obsessões sempre foram  hobbies, estrangeirismo que se relaciona com tudo aquilo que mais gostamos de fazer. 

Motivações ou interesses não eram tão fortes a ponto que pudessem transformar essas brincadeiras em algo mais importante quando eu era mais jovem. 

A criatividade é o produto de uma conjugação bem sucedida e natural de talento que foi direcionado para um fim produtivo e transcendente ou transbordante, por isso que a mesma é quintessencialmente uma trans-ordem. A criatividade (também) é um fenótipo pois precisa tanto do ambiente e todas as suas possíveis fontes de inspiração, circunstâncias positivas mas também e especialmente de uma disposição natural para que possa ser expressada. 


A personalidade criativa (imaginativa) pode ou não resultar em realizações de igual natureza e dotadas de magnitudes interessantes-a-impressionantes.

De um simples exercício constante e quase natural de imaginação, a partir do momento em que internalizei a importância pessoal de se direcioná-lo para algo mais produtivo, a minha fixação por certos interesses ou tipos enfáticos de pensamento transbordou do interesse e (relativo e desorganizado) aprendizado para a sua própria produção via intuição. É como se, metaforicamente falando, o homem se transformasse em um Deus, em um criador. De criado a criador.

A criatividade tende a necessitar de um tipo de personalidade, diga-se, que geralmente será rara, e que se caracterizará pela combinação entre introspecção, ou sinônimo para inteligência intrapessoal, e imaginação, a capacidade abstrata de produzir simulações visuais internas de mundos que não existem no imediato externo.

Enquanto que muitos gostam de relegar a inteligência intrapessoal a um papel marginal e potencialmente depreciativo, eu a vejo como parte essencial para o espectro da criatividade, do talento ao gênio. Sem a capacidade de compreender as próprias fraquezas e forças intelecto-cognitivas (e/ou psico-cognitivas) e de se focar nas forças as chances para que erros possam ser produzidos por esta subconsciência serão muito mais altas. 

O que também é interessante pontuar novamente é o paradoxo relativo que existe entre a sabedoria e a criatividade, a primeira enquanto o suprassumo da ''ordem mental'', isto é, a capacidade perfeccionista de auto- melhoramento e preferencialmente por meio da mitigação progressiva de erros, e a criatividade enquanto uma trans-ordem que se dá por meio de um constante flerte para com o erro, com o desconhecido.

A sabedoria é a inteligência em tempo real, a criatividade muitas vezes será acima de tudo experimental ou especulativa, antes de ser selecionada e introduzida no mundo concreto ou simplesmente realidade, claro, em condições perfeitas de temperatura e pressão.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Não existe ''dom'' *** (breve continuação do texto ''Malcolm e os elásticos'')



Um dia desses eu tive uma conversa com o meu irmão mais velho sobre o tão comum e polêmico tema ''genética e ambiente''. Meu irmão mais velho é bem menos estúpido que o meu irmão esquerdista, ''o do meio'', ainda que como todo ''não-sábio'', demonstre suas fraquezas mentalmente/cognitivamente integradas de muitas outras maneiras. O tema da conversa foi ''existe ou não existe o dom'' ** O termo dom pode ser facilmente cambiado para ''talento''. Aquele que se conhece, mais do que outros poderiam fazer por si mesmos, terá grande chance de concordar comigo sobre a realidade do talento ou dom inato, sem falar do mais agudo de todos eles, o gênio. 

O verdadeiro autoconhecimento tende a se dar por causa de uma curiosidade natural quanto a si próprio, na tentativa de ampliar o conhecimento que tem sobre si. Se consiste em um ramo pouco conhecido da ciência, que por sua vez se consiste em toda a forma de observação/manipulação da fenomenologia que obedeça à regras e finalidades de natureza puramente lógicas, isto é, na tentativa de se entender a realidade com base em uma construção convergente de padrões intercambiáveis ou coerentes entre si. Para alguém que é muito autoconsciente (ou que apresenta grande disposição para enveredar por este caminho ou destino), a noção de que o ser não tenha qualquer influência sobre o seu comportamento e suas motivações, parece absurda demais. É uma incongruência sem eixo de direção coerente, uma bússola desregulada, de quem não sabe realmente o que está afirmando. Toda vontade precisa partir do próprio ser, mesmo quando não for plenamente consciente, aliás, quase nada daquilo que fazemos será, em um sentido hiper-literal, ''consciente'', justamente porque quando agimos, estamos nada mais nada menos do que expressando todas as nossas variáveis bio-cognitivas como abordagem reativa natural, respondendo ao atrito, reagindo apenas e com (base em) nossas respectivas realidades orgânicas. Ao nos expressarmos, inevitavelmente estaremos partindo de um ponto pseudo-cego de subconsciência. O simples fato de estar redigindo este texto poderia ser entendido como uma forma de subconsciência. Por que eu estou fazendo isso** Com que motivação** O único cenário de plena consciência e consequente livre arbítrio se daria em uma realidade improvável em que a consciência nascesse antes do sistema corpo-mente e pudesse decidir sobre seu destino, isto é, sobre a construção de suas próprias características bio-cognitivas.  O sentido da ação espontânea ou naturalmente reativa está em si próprio, é a causa e o efeito simultâneos, por meio de nossas clausuras naturais ou armaduras orgânico-cognitivas (que se consiste a vida), reagimos. O ser humano é singular por ser o primeiro a conseguir desafiar esta orquestra profundamente misteriosa que serpenteia todas as nossas ações, MESMO àquela que nos faz mais singulares e despertos da realidade que nos envolve e nos afronta. 

Este não-tão-breve texto que está um pouco fora do tema principal, se consiste em uma tentativa de mostrar-lhes primeiramente o quão profundo podem ser todos os impulsos naturais de reação, de maneira que, todo o comportamento será inevitavelmente ORIGINADO pelo sistema corpo-mente do ser. O que diferenciará um comportamento do outro, será o grau de prevalência ou correlação causal de cada um, isto é, da origem até a expressão/externalização. O comportamento instintivo se consiste em uma causalidade em relação às características bio-cognitivas, por exemplo, o voo do pássaro e suas asas, o andar ereto e a constituição bípede do ser humano, a tromba e o elefante, o rabo e o macaco, etc... As reações comportamentais variarão desde a corporal-sinestésica até à respostas que forem mais influenciadas pelo ambiente. As ''simples'' reações via características fisiológicas em atrito com o ambiente até às reações mais complexas e provavelmente a mais radical de todas será a tentativa de trespassar os desígnios naturais que nos foram 'impostos'' desde nossas ''fabricações'', da concepção até os últimos dias do nascimento, situação que o ser humano está mais perto de alcançar. 

O dom se consiste na manifestação do instinto/naturalidade/causalidade comportamental que poderá ou não ser influenciado pelo ambiente, só que de uma maneira diferente daquela que os behavioristas acreditam.

Em alguns casos, haverá a necessidade de que ''circunstâncias ambientais vantajosas'' possam contribuir para que certa habilidade e especialmente, dom ou talento, possa ser desenvolvida. O exemplo mais elucidativo seria a música, especialmente em relação aos instrumentos musicais. Uma criança que tem natural inclinação/disposição para gostar e aprender (ou mesmo, algumas vezes, apenas para aprender) e for exposta cedo ou precocemente familiarizada com o instrumento musical que melhor lhe agradar, é provável que se encontrará em grande vantagem do que uma outra criança hipotética, com mesmo talento natural, mas que nunca for exposta ou familiarizada com a aparelhagem necessária.

Outros exemplos abundam. Por exemplo, a exposição para conhecimento matemático avançado, que só poderia se dar por intermédio de livros. O que se deve ter em mente é que as crianças superdotadas (talentosas ou cognitivamente dotadas) e especialmente, as geniais e as sábias, já apresentarão vantagens biológicas/naturais em relação aos seus pares de mesma faixa etária e portanto, ao serem expostas ou, o que acontece na maioria das vezes, haver uma curiosidade/procura natural pelo objeto de interesse, apresentarão um desenvolvimento muito mais rápido de especialização, aprendizado. É interessante notar no entanto, que esta mesma realidade será menos logicamente intensa em relação ao gênio criativo, porque este comungará com dois estilos mentais tendenciosamente divergentes (mas não opostos), criatividade e inteligência analítica. O que parece óbvio pra mim, parece impossível de ser entendido ou mesmo aceito por uma extensa fração de ''cognitivamente inteligentes'', a de que deve existir uma relação de reciprocidade empática (que eu cunhei de empatia cognitiva... distinta da empatia emocional) entre o ser e o objeto que está sendo exposto para que possa haver uma procura natural e posterior desenvolvimento. E quanto mais instintivo, mais inato for este potencial, mais natural e divertido será o seu desenvolvimento, o esticamento dos elásticos, usando novamente a metáfora dos elásticos.

 Voltando ao meu relato pessoal. Durante a minha conversa com o meu irmão, ele, que advogou pela inexistência do dom, me disse que a prática precoce seria a explicação mais coerente para mostrar o porquê de algumas pessoas serem tão boas em alguma particular atividade cognitiva ou sinestésico-corporal do que outras. Então eu lhe contei sobre o meu déficit significativo em matemática e que desde sempre nunca gostei desta matéria. Ele usou Mozart, o gênio austríaco da música clássica, como exemplo, para explicar que se eu tivesse sido forçado a aprender matemática desde quando era criança, tal como parece ter acontecido com o compositor em relação à música, é provável que tivesse me tornado muito inteligente neste conhecimento. Tal como eu mostrei ou tentei mostrar no texto da ''Síndrome do Polímata'', me parece que a maioria das pessoas que são mais cognitivamente inteligentes, são mais propensas a bancarem os polímatas, isto é, aquele que acha que ''sabe de tudo'' ou ao menos em relação a uma grande variedade de conhecimentos, e especialmente em relação às ciências humanas.

Por que discutir sobre política e religião não é algo muito inteligente de ser feito**

Simples, porque todo mundo quando discute sobre política ou religião, sempre expressará SEUS PONTOS DE VISTA, suas respectivas perspectivas existenciais, e como eu tentei pedantemente mostrar acima, serão respostas instintivas, adaptadas a contextos culturais. As culturas humanas nada mais são do que representações refletidas de macro-padrões cognitivos (comportamentais, mentais e corporal-sinestésicos), metafórico-literalmente falando, existe um enorme espelho (cultura biologicamente refletida) a nossa frente e nós só ''podemos'' manter a direção de nosso olhar ''coletivo'' a ele (desprezando os verdadeiros inconformistas).  Discussões são prolíficas, debates são raríssimos. Todo mundo acha que pode falar sobre política, religião, comportamento, porque são fatores muito mais pessoais, muito mais comuns em nossos cotidianos. Mas na verdade, os 3 apresentam macro-padrões, são sistemas, podem ser divididos, hierarquizados, em outras palavras, nós podemos ver seus esqueletos, suas estruturas, e perceber que se assemelham a qualquer outro sistema, porque tudo aquilo que é lógico e sustentável (lógico não é o mesmo que racional) será sistemático e obedecerá a padrões que se retroalimentarão por tempo indeterminado. 

Portanto, ''mesmo'' em relação à fenômenos que nós vivenciamos a uma base diária, também se pode exatificar, dar-lhes precisão sistemática, porque é justamente aquilo que são. Perceber a realidade é descrevê-la e nada mais. Apenas com base na moralidade ou racionalidade humana, que poderemos aplicar algo a mais, tirando-lhe a alcova de ''lógico'' ou sistematicamente pragmático.

Voltando ao tema principal. Meu irmão, ao desprezar padrões hormonais, tipo de lateralização, tamanho do cérebro, quantidade e ''qualidade'' dos neurônios dentre outras características biológicas que nos fazem distintos, isto é, desiguais, concluiu que qualquer um poderia se tornar um Mozart, desde que fosse forçado precocemente a se dedicar à música. Eu não sei de onde que ele tirou isso mas talvez não seja de todo errado. 

O ser humano, talvez, possa ser comparado à uma bolha gelatinosa que pode ser esticada, mas que, quando o esforço for cessado, voltará a sua posição habitual, de inércia, especificamente se não for do seu feitio/naturalidade fazê-lo. Esforço exagerado sem qualquer reciprocidade empática em relação à atividade que está sendo praticada, é sobre-humano, doloroso e anti-natural. Se eu começar a estudar matemática, talvez eu consiga melhorar muito o meu parco conhecimento que tenho por agora. Mas se não houver uma disposição que possa cobrir este esforço sobre-humano a longo prazo, é provável que depois de um tempo, eu volte ao meu normal habitual e esqueça boa parte do conhecimento matemático que consegui.... memorizar** 

Na escola é muito comum disto acontecer. Alguns alunos tem o hábito de decorar a matéria antes das provas. No momento da avaliação, eles tendem a ''saber'' muito mais do que sabiam durante todo o período. Logo depois da prova, também é muito comum que se esqueçam de quase tudo que decoraram. 

Eu já fiz isso,  já fiz um esforço sobre-humano que me custou algumas horas. Me deixou de mau humor, reclamando do sistema escolar, do porquê de ser assim, de nos forçar a ser aquilo que não somos, que não estamos dispostos a sermos.

A escola acredita que todo mundo poderá se transformar em um polímata até o último ano do ensino médio se a abordagem pedagógica certa for aplicada. 

Aprender/internalizar está indissoluvelmente relacionado com a essência bio-identitária do ser. Aprender é o alimento do ser, tudo o que aprendemos, transformamos em parte de nossas identidades, deve ser encaixável, recíproco.

 Como eu falei no texto ''Malcolm e os elásticos'', pode-se amplificar alguns atributos cognitivos superficiais com a prática, como decorar várias contas matemáticas ou de física, mas decoreba NÃO É aprendizado. E ainda é importante separar o que é decoreba ou memorização pragmática/superficial daquilo que se consistir em memorização complementar, isto é, que é parte de um processo de aprendizagem natural ou auto-motivada e com potencial de expansão espectralmente coerente. Aprender é internalizar, é pegar pra si aquele conhecimento e vivenciá-lo, expandir disposições cognitivas naturais, em outras palavras, exercer o seu desenvolvimento e vivência naturais. 

Portanto, como resposta ao meu irmão. O talento ou dom existe, todos nós temos algum talento ou dom; existirão claras diferenças de nível quantitativo e qualitativo em relação a uma panaceia de habilidades, todas elas que serão naturais em sua origem, mesmo um emprego de telemarketing, tudo resplandece, causativamente ou correlativamente, às nossas variáveis e disposições bio-cognitivas. Quanto mais causal for a habilidade, mais instintiva será, mais natural e potencialmente desenvolvida se tornará. 

O melhoramento de algum talento não se dá apenas por pura repetição mas também pelo uso do verdadeiro fator g em sua melhor expressão, ou seja, a sabedoria, na arte de se fazer o melhor julgamento para certa situação e consequentemente se tornar mais perfeccionista. 

Eu duvido muito que se Mozart não tivesse tido um gênio natural para a música, que teria se tornado o compositor excepcional que foi. Enfatizar (apenas, se não parecer redundante) pelo ser está errado porque de fato, existe a necessidade de ''alguma'' independência/vontade para perseverar e melhorar em determinada atividade. Mozart não foi o gênio musical que foi apenas porque ele nasceu com esta disposição, mas porque ele usou a sua disposição de maneira esperadamente espetacular a ponto de merecer tal designação. A dimensão onde que os tipos humanos mais virtuosos se encontram é por deveras muito mais complexa do que em relação aos demais, por primar pela perfeição objetiva do entendimento quanto à fenomenologia, que quer indicar múltiplas perspectivas. 

Quanto mais genial ou mais agudamente virtuoso, maior será a presença/influência de fatores ambientais únicos, o acaso, por exemplo, para produzir uma linda poesia, única em seus versos e também em seu nascimento, em sua produção ou para ter ideias espetaculares de qualquer natureza. É por isso que é hábito entre nós, os criativos, de sempre escrevermos nossas ideias. Porque elas são tão únicas, não necessariamente no conteúdo, mas na maneira como que vieram, por meio da intuição, que não podemos simplesmente deixá-las seguir rente ao esquecimento. Naquele espaço e tempo únicos, um ser humano teve uma nova ideia, que parece rara ou única em sua natureza. Este é um exemplo visceral de fator ambiental único, de acaso, de algo profundamente singular que não depende apenas da biologia, mas ainda depende venalmente dela, porque precisa ser apropriada para que possa haver esta combinação única de fatores.

O garoto que ilustra este texto, nos mostra que não adianta tentarmos desenvolver qualquer habilidade, se ela não vier de maneira natural, tal como desenhar. Ainda pode ser possível usar a sabedoria cognitiva (enfatizada em suas atribuições cognitivas e desprovida do senso moral significativo, em seu estado natural) para tentar superar obstáculos que são naturalmente impostos pela natureza, mas ao se ter esta consciência ou se perceber esta possibilidade, será necessário que se tenha no mínimo astúcia, a ''pequena e pragmática sabedoria'', porque do contrário, será pouco provável que conseguirá enxergar oportunidades quando ''elas não se apresentarem'' de maneira explícita e óbvia pra você.

Da mesma maneira que eu nunca tive inclinação natural pra matemática, também nunca tive inclinação natural para as artes visuais, pelo menos em relação à categoria mais impressionante, a representação visual perfeccionista ou realista. Eu já tive e admito que tenho inveja daqueles que conseguem esboçar com tanta facilidade desenhos de grande beleza e perfeição. Ter vontade, mas saber que não é bom, é apenas mais uma demonstração da sabedoria, do autoconhecimento. E é isso que parece separar de maneira mais precisa, os tipos sábios dos idiotas úteis.

Outro fator é a relativa arbitrariedade cultural do dom ou talento. Em nossas sociedades, moralmente hipócritas, certos dons evolutivos não são EXPLICITAMENTE apreciados até porque não haveria razão racional para fazê-lo especialmente sob uma ótico micro-interacional ou pessoal. Por exemplo, a astúcia natural de muitos tipos anti-sociais como os psicopatas de alto funcionamento. Outros tipos de talentos são tidos como hierarquicamente inferiores porque denotam ou refletem algo que se relaciona tanto com a disposição das classes sociais e laborais, quanto pela predominância da moralidade hipócrita, a moralidade subjetiva, em nossos julgamentos. Portanto, tocar violino pode ser considerado como um dom, mas ser um perito na arte de se fazer sexo, não será, especialmente para a classe educada. Não espere por ''diplomas de superdotação'' para um ator pornô talentoso em seu trabalho, por parte dos ''neurotípicos'', porque ele não terá reconhecimento de fora de sua esfera de atuação (foderdimento) e vivência.