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quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Sobre níveis de ceticismo

 Vejamos três exemplos:


Predomínio da influência biológica na inteligência humana, existência de vida extraterrestre e de deus/eternidade.


Em relação à possibilidade de predomínio da influência biológica na inteligência humana, existem padrões, que são rastros de evidências concretas, por serem comportamentos ou características que se repetem, que corroboram para a sua veracidade. Existem vários exemplos desses padrões. Um deles é o fato de que filhos adotados tendem a apresentar níveis similares de inteligência aos dos seus pais biológicos do que dos seus pais adotivos. Com base nisso, é racionalmente recomendável que o nível de ceticismo sobre essa possibilidade seja baixo.


Em relação à existência de vidas extraterrestres, não existe sequer um rastro de evidências concretas ou de padrões, tal como têm no primeiro exemplo, se a grande maioria dos relatos e provas de aparições de naves estranhas ou de abduções são duvidosos. No entanto, existem razões lógicas baseadas em padrões existentes que, indiretamente, corroboram para a possibilidade de existência de vida fora do planeta Terra. Por exemplo, o tamanho impensavelmente descomunal do universo, cheio de planetas e sistemas solares similares ao nosso, com potencial de terem condições de abrigar vida simples à complexa. Por isso, é racionalmente recomendável que o nível de ceticismo sobre essa possibilidade seja médio.


Por fim, temos o caso da crença na existência de deus/eternidade, que não tem absolutamente nada, nem rastro de evidência concreta nem razão lógica respaldada por padrões existentes que, indiretamente,  corroborem para a sua plausibilidade. A única e remota ou proto razão lógica pela qual se baseia é a de que "se toda criação tem um criador (supostamente falando), então, o mundo ou o universo também tem e que se chama deus". Se tudo o que existe teve um momento de surgimento ou "criação", não significa que tudo foi literalmente criado por uma entidade consciente e absolutamente poderosa. Mesmo que não seja possível provar, pelo método científico, nem a existência nem a inexistência de deus/eternidade, não há nada de remotamente concreto que apoie a tese de que exista,sem falar que o ônus da prova recai sobre aqueles que acreditam. Portanto, é racionalmente recomendável que o nível de ceticismo sobre essa possibilidade seja o mais alto possível.


Pois se deveríamos, por exemplo, repensar sobre os métodos tradicionais de ensino usados na maioria das escolas, por estarem baseados na crença de que o meio tem um papel predominante no intelecto humano, em  relação à biologia; se também deveríamos  continuar preocupados ou ansiosos com a possibilidade de descoberta ou de aparição de seres vivos vindos de outro planeta; não mais deveríamos manter ou tolerar o nível de influência cultural e política das "religiões" organizadas nas sociedades humanas, no máximo delegando-as um nível similar de poder, em sua maior parte,  inofensivo, que atualmente tem a astrologia. 


Sobre ateísmo e crença religiosa, correlação ou causalidade??

 Uma pesquisa realizada com 1.417 residentes nos EUA descobriu que pessoas que cresceram em lares sem forte doutrinação religiosa são mais propensas a serem ateias.


Fonte:https://www.psypost.org/2021/10/new-psychology-research-identifies-a-robust-predictor-of-atheism-in-adulthood-61921


Então, os pesquisadores desse estudo concluíram que o principal fator para alguém se tornar ateu é se tiver tido uma criação secular ou sem (tentativa de) imposição de crença religiosa. De que, se quiser entender por que alguém se torna ateu, basta olhar para os seus pais...


Eu não sei se concordo com essa conclusão porque penso que foi encontrado uma correlação (positiva) entre as duas variáveis da pesquisa, ateísmo e tipo de criação recebida, e não uma relação diretamente causal entre elas. Por isso, acho que não é possível afirmar que a escolha individual pelo ateísmo seja unicamente determinada por uma educação não-religiosa dada pelos pais, se não são todos os ateus que cresceram nesse tipo de ambiente.


Como resultado de minha discordância pontuarei rapidamente nesse texto outros caminhos para um possível aprofundamento, tanto da pesquisa quanto do tópico que aborda.


Vamos a eles:


1⁰ ponto


"Pais menos religiosos são mais propensos a terem filhos menos religiosos e/ou ateus"


Foi o que esse estudo também descobriu, mas que não foi igualmente destacado pelos pesquisadores como uma possibilidade de explicação. Isto é, de que, talvez, exista uma relação de hereditariedade, em que pais menos religiosos, inclusive os que são moderadamente religiosos, são mais propensos a passar para os seus filhos suas "tendências genéticas" de moderação ou descrença, ou então mutações que aumentam a expressão dessas tendências. E, por estarmos falando de uma variedade de traços cognitivos e psicológicos e de polimorfismo na transmissão desses traços, também podem ter filhos menos ateus ou mais religiosos que eles.


2⁰ ponto


Perspectiva individual


Quais fatores intrínsecos, do indivíduo, e extrínsecos, do meio, que fazem com que nos tornemos ateus, agnósticos ou religiosos??


Acho que também seria importante entrevistar os participantes desse estudo para saber se existem outros fatores comuns entre eles, como certos traços cognitivos ou de personalidade, que podem ter contribuído para terem se tornado ateus. Eu mesmo já escrevi uns dois textos pensando sobre os possíveis fatores que me levaram ao ateísmo.


3⁰ ponto


Ateus ou não-religiosos??


Me parece que existe uma tendência de tratar ateus e não-religiosos como equivalentes. No entanto, existem diferenças de intensidade de convicção e, portanto, de possibilidade para mudar de opinião em relação à crença religiosa, até porque muitos dos que se definem como não-religiosos são de agnósticos. E, a relevância demográfica possivelmente verdadeira desses "não-religiosos" em relação aos "ateus convictos" pode explicar, em partes, casos interessantes como dos estados alemães que, de 1949 a 1990 compuseram a extinta Alemanha Oriental, e que, graças às ondas de secularização, iniciadas na segunda metade do século XIX, quando faziam parte do Reino da Prússia, continuadas durante a República de Weimar, na década de 20 do século XX, e intensificadas com os governos "comunistas", se transformaram, de uma sociedade de maioria formalmente protestante, para uma das regiões mais ateias da Europa e do mundo. Portanto, talvez, não seria apenas uma questão de ser mais propenso a ser religioso ou descrente, mas também de ser mais conformista. Afinal, essa ideologia, que foi criada pelo Estado "comunista", se tornou estruturalmente onipresente naquela sociedade, marcando gerações de maneira profunda. Seria até interessante saber o quanto desse ateísmo que é legítimo e o quanto que é herança cultural da ex Alemanha Oriental, se a maioria dos que a habitaram durante a sua existência[que ainda estão vivos] e seus descendentes são ateus por convicção ou especialmente por terem crescido em uma cultura marcada pela ausência de doutrinação religiosa. Independente disso, ainda existe e sempre existiu uma minoria de cristãos nessa região, o que sugere um caráter mais intrínseco, para alguns ou muitos daqueles que estão mais propensos à crença em metafísicas, e o mesmo para o ateísmo não-intermitente.


4⁰ ponto


Religião ou culto??


Para que alguém se torne religioso também é preciso que seja exposto à uma religião, preferencialmente se for desde cedo, e integralmente recíproco à sua influência. Mas, nem precisa ser uma religião porque pode até ser uma seita ou um culto. Aliás, parece que não existem muitas diferenças entre eles: o nome, o nível de poder político ou cultural e, portanto, de prevalência (as religiões são sempre mais "poderosas" que os cultos) e o direcionamento da crença (as religiões, caracteristicamente, se baseiam na crença em deus/deuses e eternidade, enquanto que os cultos são mais heterogêneos), porque são praticamente a mesma coisa. Por isso, até penso que a crença religiosa pode ser clinicame

A diferença entre ser contra, com sabedoria e com estupidez

 Já deixei claro, pelos meus textos, que sou totalmente contra a extrema direita e a direita, de maneira geral. Mas isso não significa que eu seja contrário a tudo aquilo que pensam ou defendem. Por exemplo, eu concordo com a maioria dos "conservadores" quanto ao seu posicionamento mais moderado/cauteloso em relação à imigração, por serem baseados em argumentos mais razoáveis do que, em comparação à maioria dos progressistas, que defendem por uma utopia de "mundo sem fronteiras" à la John Lennon e Yoko Ono. Em outras palavras, apesar de ser totalmente contra o [ultra]conservadorismo e o capitalismo, eu ainda preciso estar aberto a reconhecer que aqueles que os defendem não estão equivocados sobre "tudo", se quiser ser coerente com a proposta filosófica, de prática sistemática da racionalidade.


Isso é "ser contra", com sabedoria.


Em compensação, a maioria dos progressistas  tende a se posicionar automaticamente contra qualquer posicionamento conservador, sem antes avaliar o seu nível de veracidade, pelo simples fato de ser defendido por pessoas que estão do outro lado ou porque são de direita. Isso também acontece com a maioria dos conservadores e se consiste em ser contra, mas com estupidez, por não levar em consideração a possibilidade de que o outro lado possa estar certo, pelo menos, sobre alguma coisa relevante.


Apenas pense no que já está acontecendo nos países ocidentais que adotaram políticas de flexibilização de fronteiras há mais tempo: aumento da população de fundamentalistas "religiosos", principalmente de muçulmanos, via imigração em massa e, portanto, de hostilidade, preconceito, enfim, de "conservadorismo" (importado) contra mulheres emancipadas, não-religiosos, minorias sexuais... sem falar que isso favorece as direitas no campo da política. Enfim, "o tiro saindo pela culatra"...

terça-feira, 26 de outubro de 2021

O darwinismo social é o oposto da eugenia e eu vou explicar por que...

 ...com a analogia do livre mercado ou de sua regulação pelo Estado


O darwinismo social é o mesmo que desregular a sociedade (igual ao "livre mercado"), deixando que os "mais adaptados" triunfem e dominem, de maneira "natural", sem pensar nas consequências. Aliás, isso já acontece, mas com alguma regulação...


Por essa perspectiva de comparação, a eugenia é o oposto do darwinismo social porque consiste numa proposta de regulação significativa da sociedade pelo Estado, inclusive sobre os padrões reprodutivos da população, de incentivo à procriação dos mais saudáveis, bonitos, inteligentes, empáticos, sábios E/OU racionais??? E/OU pelo desincentivo dos seus respectivos opostos??


Pois parece que, pelo menos por essa perspectiva, darwinismo social e eugenia são antônimos e não sinônimos, como muitos pensam. 


Talvez uma outra diferença marcante é que o darwinismo social é sempre problemático (tal como o livre mercado), enquanto que a eugenia é bem mais complexa do que muitos pensam, porque pode ser usada tanto para o bem quanto para o mal (o mesmo para uma maior regulação do Estado).