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sábado, 18 de outubro de 2025

Uma validação pseudo-paradoxal do determinismo biológico

A epigenética não prova a ideologia da tabula rasa...



Durante alguns meses do rigoroso inverno europeu de 1944-45, invasores nazistas cortaram todo suprimento de comida de 4,5 milhões de pessoas, nas regiões ainda ocupadas do território neerlandês, resultando em uma crise de fome coletiva que matou aproximadamente 20 mil pessoas por desnutrição severa. Então, décadas depois, suas consequências continuaram a ser sentidas na geração dos filhos de mulheres que estavam grávidas naquele período crítico da história dos Países Baixos, porque foi percebido que apresentavam uma maior incidência de doenças metabólicas, como o diabetes e a obesidade, problemas cardiovasculares, esquizofrenia... do que em relação ao restante da população do mesmo país.


Pois parece notório observar que, condições extremas, de acordo com o que é considerado extremo para cada espécie, costumam causar efeitos extremos nos organismos dos seres vivos. No entanto, também é necessário que esses organismos não estejam adaptados a suportar tais condições, tal como no caso dos seres humanos. Portanto, não é apenas o ambiente que os influencia, porque eles respondem e interagem de acordo com as suas próprias naturezas (seus limites e potenciais adaptativos).


Em relação ao famoso exemplo acima, muito usado como demonstração de efeitos epigenéticos transgeracionais, ele não prova que o meio é mais importante que a biologia, mesmo que muitos tenham chegado a essa conclusão. Na verdade, prova que é a biologia que determina as reações comportamentais e/ou orgânicas dos seres vivos às diferentes condições ambientais nas quais se encontram, sempre ela que dá a resposta final. Por isso que, se o organismo humano fosse plenamente adaptado a uma situação de penúria alimentar, não sofreria maiores repercussões se fosse submetido à mesma.


Afinal, o que torna algumas espécies mais adaptadas à condições extremas, como algumas bactérias, e outras não??


Principalmente as suas biologias.

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Minhas impressões sobre a epigenética

O que eu entendo sobre genética?

Que nossos corpos são formados por genes que regulam e controlam suas funções; que são transmitidos de pai para filho; que também se combinam durante a concepção, no momento em que o espermatozóide fecunda o óvulo; que a expressão genética é variavelmente influenciada pelo meio; que existem genes recessivos e dominantes; que existem fenótipos mais simples e estáveis, compostos por poucos genes, tal como os que controlam a expressão da cor dos olhos, e longas cadeias de genes que formam fenótipos complexos, como as capacidades cognitivas; que a evolução das espécies acontece principalmente pela seleção de traços, ou expressões genéticas, considerados mais adaptativos; que mutações podem ser transmitidas ou ocorrerem a partir desses processos*, particularmente no período pré natal... 

* Na verdade, eu não sei se certos tipos de expressões atípicas, como a orientação homossexual, são resultados apenas das condições do ambiente intra-uterino, durante a gestação, ou se já são determinadas, pelo menos parcialmente, na concepção, isto é, a partir da combinação dos materiais genéticos dos progenitores.

O que eu entendo sobre epigenética?

Eu entendo que é considerado um campo emergente da biologia e que se consiste, simplisticamente falando, na ocorrência de supressão ou promoção da expressão específica de genes, geralmente causada por gatilhos ambientais, que pode ser congênita ou adquirida, crônica ou temporária, positiva ou negativa, que é chamada de "epimarca" e que pode ser transmitida de uma geração para outra...; que a epigenética é um termo que, do grego, significa aquilo que está além ou acima da genética.

Agora, as minhas impressões: 

Sinceramente, eu penso que a epigenética se parece ou se comporta como uma pseudociência.

Minha primeira suspeita vem da ininteligibilidade, especialmente para leigos, como eu, de alguns de seus artigos que já li ou tentei ler. Pode ser por causa da complexidade intrínseca da área em que é inevitável o uso de termos muito técnicos ou específicos, ou então porque seus pesquisadores são treinados para usar uma linguagem acadêmica obscura que visa esconder sua natureza pseudocientífica. 

Pois eu poderia apostar que a maioria dos "epigeneticistas", os pesquisadores em epigenética, se interessaram por essa área justamente por causa de suas crenças na tábula rasa, no determinismo absoluto do meio sobre o desenvolvimento e o comportamento humanos (e de outras espécies). Consequentemente, também devem acreditar que as diferenças MÉDIAS de comportamento e inteligência entre diferentes grupos e indivíduos humanos são resultados exclusivos das diferenças dos ambientes em que se encontram, porque estas funcionariam como gatilhos para a expressão epigenética, de supressão ou promoção da expressão de genes específicos. E não que sejam primariamente reflexos das diferenças de variações genéticas ou biológicas dos mesmos.

O meu próprio exemplo em que, se eu não consegui desenvolver minhas capacidades matemáticas a um nível mediano até à idade adulta, segundo a epigenética, é porque ocorreu uma supressão dos genes relacionados, que aconteceu em algum momento do meu desenvolvimento, causada por algum fator ambiental e não que, eu, provavelmente, já nasci com um cérebro matematicamente inapto, que foi praticamente programado, mesmo em condições ótimas, para não se desenvolver muito nessa área, e/ou que o meu fenótipo cognitivo possa ser o produto de uma combinação dos materiais genéticos dos meus pais, ocorrida já na (minha) concepção...

Parece até que a epigenética visa desnaturalizar mutações ou variações da expressão biológica, separando-as do que seriam as variações "mais naturais", chegando a flertar com a hipótese do "design inteligente", mas um tipo mais "progressista": de que existe um desenvolvimento ou uma expressão ideal e que marcadores epigenéticos seriam, na maioria das vezes, erros ou anormalidades unicamente decorrentes da influência de circunstâncias ambientais desfavoráveis.

Outro aspecto que me faz suspeitar da epigenética como uma possível pseudociência, ou que tem se desenvolvido desta maneira sem necessariamente ser, é o estabelecimento precoce de uma "narrativa assertiva ou triunfalista" presente em alguns artigos que li em que, primeiro, afirma que o debate "genética x ambiente" já está encerrado, justamente por causa dos resultados encontrados nas pesquisas da área e, então, despreza a importância da (variação) genética...

Outra variante de narrativa triunfalista ou assertiva endossada em pesquisas e artigos de epigenética é a de se afirmar que Darwin e Wallace estavam errados quanto à sua ideia de seleção natural, porque a mesma estaria provando que o ambiente é mais determinante...

Então, talvez Lamarck estava ou está mais certo?? E a epigenética seria uma espécie de neolamarckismo?? 

Na verdade, eu acho que ainda (?) não foi encontrado que a "supressão ou a promoção da expressão de certos genes" tende a acontecer de maneira totalmente independente da variação ou probabilidade genética de indivíduos e grupos, se é isso o que a epigenética está sugerindo...

Assim como a sociologia tem desprezado, de maneira categórica, o papel da biologia como um fator relevante de influência no comportamento humano, a epigenética também tem se comportado assim em relação à genética, atribuindo à si mesma a maior parte da influência. 

A priori, eu acredito que seja uma área relevante, mas que tem fragilizado sua própria validade científica ao deixar implícito que busca confirmar crenças político-ideológicas pré estabelecidas da maioria dos seus pesquisadores, dos pioneiros aos atuais, ao invés de sistematizar o pensamento lógico-racional ou imparcial-objetivo em suas abordagens, isto é, de praticar ciência de maneira legítima.

Existem muitos exemplos que confirmam a influência preponderante da genética ou biologia sobre o desenvolvimento e o comportamento humanos, ao mesmo tempo que também mostram a influência do meio, tal como o aumento da estatura, primariamente percebido em populações de países ocidentais, nos últimos 80 anos ~, atribuído a uma grande melhoria na alimentação das mesmas, em um sentido quantitativo. Pois se não foi detectado um padrão robusto e específico de seleção que tenha acontecido nesse período, então, parece que esse aumento se deve principalmente a fatores ambientais. Porém, mesmo consumindo valores similares de calorias, populações etnicamente diferentes têm apresentado aumentos médios de estatura que estão de acordo com a sua etnia ou raça, vide os exemplos dos leste asiáticos que, quando bem alimentados, têm alcançado uma média máxima em torno de 1m70 cm de altura, e dos norte europeus, especialmente os neerlandeses, que já alcançaram médias 10 cm mais altas, por comparação. E antes que se possa argumentar quanto às diferenças socioeconômicas dos países do norte da Europa em relação a países de outras regiões  como um possível fator para explicar as diferenças de estatura alcançada, basta mostrar que, entre os povos mais altos do mundo, têm uma tribo africana, os dinka, e um povo dos Balcãs, os montenegrinos, no sudeste europeu, de duas regiões historicamente empobrecidas...

Não que a genética, sozinha, seja o destino, mas eu não acredito que seja possível superar limites ou potenciais anteriormente determinados ou previstos por ela ou pela biologia, novamente, se é isso mesmo que a epigenética está deixando a entender... É por isso que, nós, seres humanos, não podemos voar, mas podemos nascer com uma deficiência física ou adquiri-la, bem como de desenvolvermos algum tipo de agilidade motora, sempre de acordo com as possibilidades da nossa espécie.

Outros exemplos e que são muito populares para a demonstração de alterações de natureza epigenética são: o vício ao cigarro ou tabagismo que, por si mesmo, se expressa a partir de alterações neuroquímicas no cérebro e é seguido pelo risco aumentado de desenvolvimento de doenças relacionadas, a médio e longo prazo, e de um transtorno pós traumático a partir de experiências geralmente vividas na infância ou adolescência. Pois ao invés de serem, puramente falando, resultados da influência do meio sobre determinado organismo ou indivíduo, tal como muitos "epigeneticistas" parecem pensar, podem ser resultados de uma maior sensibilidade específica, como parte de uma variação genética ou biológica anterior ou predisposição, porque não são todos aqueles que são fumantes crônicos que desenvolvem doenças respiratórias e nem todos os que passam por traumas que adquirem sequelas psicossomáticas.

Parece haver um engano comum em relação à genética, de se pensá-la como sinônimo de determinismo absoluto ou rigidez expressiva, enquanto que sua expressão tende a variar em sensibilidade, reatividade ou estabilidade, dependendo do traço em si, das circunstâncias do meio e do próprio indivíduo (dos seus potenciais e limites).

Eu acho que a epigenética pode ser um termo que basicamente se refere à ocorrência de mutações e também de plasticidade de traços, não necessariamente de algo que pode acontecer "além da genética". Até já pensei em renomeá-la como "endogenética", como uma diversidade de variações que acontecem DENTRO das possibilidades genéticas de um indivíduo ou população, isto é, dentro do domínio da genética, já partindo desse pressuposto de que a mesma não é estereotipicamente inflexível tal como muitos acreditam.

Eu concordo que, nós, seres humanos, podemos ser muito sensíveis ao meio, mas também acredito que essa sensibilidade ou potencial de variação apresenta limitações, que são determinadas pela própria biologia ou genética, novamente o exemplo das diferenças étnico-raciais no aumento da estatura no último século, não apenas nesse caso mas também em vários outros, tal como a inteligência.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Teoria para explicar os preconceitos cognitivos de ambos: conservadores, progressistas, hereditariedade versus epigenetica

Os mais conservadores são menos mutantes ou mais estáveis biologicamente (variam menos) que os mais progressistas, mais mutantes, logo, o primeiro tende a ser mais naturalmente propenso a acreditar na hereditariedade de caracteres proposta por Darwin enquanto os progressistas são mais propensos a acreditar  a epigenética, recente releitura tanto do darwinismo quanto do lamarckismo e que eu prefiro chamar de neolamarckismo 

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Recessivo, ..... , Dominante

De acordo com uma das leis do gradualismo, que eu usei para especular sobre a origem da vida em um texto recente e que ''inventei'' agora, quase tudo aquilo que existe, varia ''em si mesmo'' e portanto exibe um espectro próprio. Por isso eu pensei que, talvez, possa ser usada para sabermos onde que a tal ''epigenética'' de fato se localizaria... 

Bem, nós temos os genes recessivos, que não se expressam ou que não se tornam fenótipos .... e temos os genes [contextualmente] dominantes ou fenotípicos, que se expressam. Mas será que também não teríamos expressões intermediárias, entre a dominância e a recessividade* Já parece evidente que tenhamos mesclas entre as expressões, por exemplo, em relação às cores intermediárias dos olhos.

 Por isso que eu pensei [sim, ''pensei''] nos genes ''metamórficos'', que, ao contrário do binarismo ''recessivo versus dominante'', se localizariam no meio deste espectro, podendo se manifestar, só que mais dependente das condições ambientais...


A estatura por exemplo. Com o advento da ''dieta moderna'', hiper-calórica, mas também por causa de uma ''melhor' alimentação, de maneira geral, as populações humanas que tem sido expostas a essas mudanças, tem aumentado de estatura média, de geração em geração. As gerações mais novas tem ficado cada vez mais altas se forem comparadas com as gerações mais velhas, em média. Se não tivermos qualquer seleção intensa para uma maior estatura, se temos muitos pais de estatura mediana dando à luz a filhos que, ao crescerem, se tornam mais altos que eles, então algo está acontecendo, e que apenas a teoria darwiniana não pode explicar de maneira plenamente satisfatória.

 Primeiro, são os pais que, por terem sido expostos à boas dietas desde a infância, tem de alguma maneira obscura, ao menos pra mim, se modificado geneticamente, resultando em um aumento de chances de passar essa mudança não-fenotípica/que não foi plenamente expressada em si mesmos, para os seus filhos* Isso é possível de acontecer* Ou será que, são os filhos que nascem com ''genes metamórficos'' e que, ao serem expostos a toda sorte de hábitos propícios ['melhor'' alimentação, maior prática de exercícios] acabam se desenvolvendo mais em estatura* Claro que, se existem tais ''genes metamórficos'', então eles terão sido herdados pelos seus pais. O aumento da estatura que tem ocorrido em muitos países, parece refletir um fenômeno mais generalizado. Aí cabe a pergunta: algum processo seletivo tem acontecido para resultar neste aumento de estatura ou foi, pura e simplesmente a melhoria nas condições de vida que tem proporcionado este aumento* Pelo que parece, a estatura se consiste em um traço ambientalmente maleável para a maioria dos seres humanos.

Nós já sabemos [ou não] que existem famílias, em que, a maioria das pessoas são altas, desde as gerações anteriores, mesmo em épocas de ''vacas magras'' e que também existem famílias em que, o oposto é a regra, isto é, que a maioria dos seus componentes são de baixa estatura, e que este traço tem se manifestado à gerações. E talvez também tenhamos famílias em que, ao contrário de um predomínio de genes que aumentam ou que reduzem a estatura, de acordo com a média local, existe um cenário muito mais heterogêneo, com, sei lá, expressões híbridas, tanto com genes para alta estatura quanto com genes para baixa ou média estatura, e que, de fato, as condições ambientais, tal como uma exposição precoce à uma dieta altamente energética, são importantes mediadoras para o resultado final: a estatura mais alta dessas pessoas. E partindo do pressuposto que os genes para maior estatura parecem ser mais ''masculinos'' ou '' mais propensos de serem passados por via patrilinear'', se os homens são em média mais altos que as mulheres. 

Tal como nós temos os estados da água: sólido, líquido e gasoso, sendo que o estado líquido é o que se pode chamar de, estado híbrido [ou talvez não, enfim] mas com certeza o mais metamórfico, o mesmo pode ser dito sobre o ''estado dos genes'', em que, nós temos os genes recessivos e os genes dominantes, mas também os genes metamórficos, que podem ou não se manifestar, que podem ou não se manterem recessivos. O exemplo das mudanças na dieta, na melhoria da qualidade/padrão de vida, nos países ricos, mas também em outras nações, e consequente aumento da estatura média, parecem estar nos mostrando que algumas expressões genéticas, ao contrário da ''dobradinha'': genotipicamente recessivo e dominante, podem se expressar, mas apenas de acordo com as condições ambientais, isto é, que podem ser alimentadas ou mesmo, parcialmente direcionadas, enquanto que, para algumas populações ou grupos [famílias, por exemplo] a mesma variação de traço já será mais fixa, que independe das condições ambientais para se expressar.   

Basicamente: algumas pessoas nascem com potencial para se tornarem altas, desde que uma série de condições ambientais favoráveis a este caminho sejam mantidas. Elas nascem com a ''expressão-potencial'', enquanto que outras pessoas nascem ''geneticamente predestinadas'' para se tornarem altas, e mesmo em situações extremas, ainda alcançarão elevada estatura, mesmo que não alcancem o seu potencial máximo de expressão deste traço.

Alguns são mais epigenéticos/dependentes do ambiente para expressarem certa variação de traço enquanto que outros serão mais ''genéticos'' em relação ao mesmo traço, isto é, o expressarão independente das condições ambientais. 

O mesmo pode ser dito por exemplo em relação ao sobrepeso, que pode ser denominado de ''vulnerabilidade'' ou ''fator de risco'', assim como também o diabetes. Alguns nascem diabéticos enquanto que outros apresentam uma ''vulnerabilidade epigenética'' para se tornarem diabéticos. Alguns nascem acima do peso, com ''ossos horizontalmente largos'', enquanto que outros apresentarão uma ''vulnerabilidade epigenética'' pra se tornarem acima do peso. 

Também seria interessante pensar se a epigenética também não poderia afetar as nossas expressões de comportamento ou características psicológicas, claro, dependendo do nível de fixabilidade ou de intrinsecabilidade do traço. Por exemplo, o nível de ansiedade [social]. 

Enfim, mais uma especulação e sensação de já ter falado sobre isso...