O que se espera de uma pessoa considerada ''mais inteligente''??
Que ela saiba escrever "corretamente", fazer contas matemáticas complexas, comparar dimensões espaciais e formas geométricas, encontrar padrões em sequências numéricas determinadas; aprender mais rápido e profundamente sobre qualquer tópico que lhe for de seu interesse; compreender fatos e de saber diferenciá-los de mentiras; de conseguir manter uma alta densidade de pensamentos e não cair em contradição frequentemente; de apresentar uma capacidade de associar ideias distantes; de saber pensar de maneira abstrata, e também, concreta ou prática, e extrair o melhor julgamento de suas análises e avaliações, inclusive em um sentido adaptativo... É tudo o que se espera de uma pessoa assim.
Mas, e se essa expectativa for baseada em uma mitologia acerca da inteligência humana e de como se manifesta nos mais inteligentes??
Pois parece ser justamente esse o caso, porque a impressão primária e real que se pode ter é de que existe uma multiplicidade do "ser inteligente"...
Um mito muito popular, particular e simplório sobre "o mais inteligente" é de que ele tem que ser "inteligente' em tudo ou no máximo que conseguir. E quando essa expectativa é quebrada (sempre é), qualquer deslize de sua parte (dos que são identificados como "mais inteligentes" por critérios variavelmente superficiais), mesmo se for um desvio crônico, é explicado por sua própria inteligência, por exemplo: se ele acredita em certas crenças político-ideológicas sem respaldo filosófico-científico, é por ser demasiado abstrato em seu pensamento, ou por ser demasiado idealista, ou por ser tão inteligente que acaba usando suas próprias capacidades intelectuais superiores para racionalizar suas crenças de maneira convincente ou mesmo de só estar agindo com astúcia... Mas, na verdade, aquele que adota crenças insensatas está mostrando que tende a ser, ele mesmo, insensato; que se é um pensador excessivamente abstrato, então tende a significar que ele é pouco prático; que, se ele é muito idealista, pode ser que também nutra expectativas irrealistas sobre o mundo; que, se ele racionaliza suas crenças, mesmo e especialmente as equivocadas, ao invés de repensá-las, de que seja autoconfiante demais; e que, se age com astúcia, frequentemente, então, pode ser que apresente desvios mais sérios de caráter...
O fato é: existem muitas maneiras de ser "inteligente" e é pouco provável, pela lógica da própria complexidade cognitiva humana e pela diversidade anedoticamente percebida de como se expressa entre indivíduos e grupos humanos, que exista apenas um tipo de "mais inteligente". Se é notório que existem aqueles que se destacam por serem mais criativos, ou por serem mais astutos, ou por pensarem melhor ou por conseguirem absorver mais informações e conhecimentos (ou por serem um pouco de tudo isso, ou por apresentarem perfis combinatórios e variáveis dessas capacidades); se por terem desenvolvido um talento específico: que pode ser um esporte ou mesmo uma modalidade relacionada com o meio social; que pode ser até sobre ser um grande amante ou um ótimo cozinheiro... Da mesma maneira que existem múltiplas maneiras humanas de se ser estúpido, idiota ou inepto, em simetria à diversidade oposta...
O que também tem se solidificado como um fato desconcertante é de que, aquele que se destaca academicamente, está em alto risco de, ao longo de sua vida, não se desenvolver como um pensador racionalmente inteligente, corroborado por um acúmulo de estudos mostrando uma correlação positiva entre pontuar alto em testes de QI, especialmente no aspecto verbal, e se identificar política e ideologicamente com a esquerda¹, afinal, apresentar uma aderência predominante ou significativa às crenças, ideias e pensamentos ditos progressistas não é apenas uma "escolha" de lado. Não é apenas mais um pacote ideológico, como tem tantos por aí. Se essas crenças, ideias e pensamentos em particular são um apanhado predominante de desvarios de vários tipos: distorções factuais; falácias lógicas e morais; falsos argumentos com base em chantagem emocional; duplo-padrão moral ou seletividade extrema de indignação e empatia; falsificação de evidências; pretensionismo intelectual... Enfim, uma espécie de "teste de inteligência racional" poderoso que pode revelar o quão desviante à razão se está; do quão falacioso, contraditório, inconsistente e subjetivamente enviesado... E se não é só a esquerda que apresenta ideias ou pensamentos insensatos, longe disso. Mas é uma das que apresenta uma consistência e uma profundidade sistemática de deficiência racional, se equiparando ao fundamentalismo religioso, se manifestando exatamente como uma espécie de "fundamentalismo secular", com o mesmo nível extremo de dogmatismo e subjetivismo epistêmico que o seu equivalente mais antigo e tradicional... Só que o fundamentalismo religioso está negativamente relacionado com alto QI², o que faz todo sentido...
Mas não é apenas ser mais irracional e sim o que isso realmente significa. Afinal, uma das funções mais importantes da inteligência é a capacidade de ter o mínimo de compreensão sobre o mundo em que se vive e isso requer realismo. Então, mesmo que importe ser "bom' em matemática, escrita e inteligência visual-espacial, ou mesmo sobre ter talentos específicos, no mais importante de tudo: na capacidade básica de entender o mundo em que se vive, parece ser comum que alguns, ou muitos, dos mais talentosos ou inteligentes, sejam excepcionalmente ruins, que consiste em um grande paradoxo!
Mas, calma, porque pode ter uma explicação lógica, ou várias...
Do que eu tenho produzido de hipóteses para explicá-lo, eis algumas
1. QI verbal explicando boa parte do paradoxo
Recentemente, pedi ao chat GPT para estimar minha inteligência verbal (QI) com base nos meus textos e poesias e ele chegou a uma estimativa de 120-130, deixando claro que não poderia pontuar mais alto porque não costumo usar palavras difíceis ou raras em meus textos, o que é bastante revelador, se mostra que muito do que se considera como "inteligência verbal-linguística", segundo uma perspectiva psicométrica, é basicamente o tamanho e o nível de 'sofisticação" do vocabulário.
Mas o que isso tem haver com ser ou se tornar mais realista e, portanto, mais sapiente sobre o mundo??
A resposta é um primário "nada". Se esse tipo de conhecimento apresenta um caráter mais estético do que diretamente funcional... Então, se é importante haver uma padronização da linguagem para que a mesma não acabe se multiplicando em muitas maneiras diferentes de se falar e escrever, isso não significa que não deixe de ser uma espécie de "estética de convenção", de algo que é arbitrariamente determinado como "certo" ou "errado" por um grupo, em determinado tempo e espaço. Isso pode explicar a correlação positiva entre fundamentalismo secular, bem representado por crenças esquerdistas, e alto QI verbal, se boa parte do que se considera como "inteligência linguística" de acordo com uma avaliação psicométrica, não passa de uma capacidade para dominar a norma culta de uma língua, e nada mais... Se quanto às funções mais importantes da linguagem: comunicação efetiva e compreensão factual, não existe realmente uma avaliação padronizada em contextos reais e precisão, mas se, com base em como muitos autodeclarados progressistas pensam e se comportam, em relação a essas funções ou facetas, não parecem apresentar uma correlação igualmente positiva, até o oposto pode ser o mais provável...
E ainda é relevante observar o apelo estético-linguístico de narrativas esquerdistas: de empoderamento excessivo da palavra, em que a mesma assume uma função além da que deveria exercer: de servir-se como um símbolo ao elemento ou fenômeno que representa, mas tratada como tão ou mais importante que a própria realidade que simboliza, com um exemplo característico, toda base de argumentos adotada pelo movimento radical trans para tentar desconstruir conceitos biológicos relacionados à sexualidade, há muito tempo, aceitos e seguramente ratificados...
2. O próprio QI como inválido para a avaliação de capacidade racional
Se a maioria dos indivíduos mais racionais tendem a pontuar alto em testes de QI, ou em pelo menos um de seus testes, isso não significa que "ter" um alto QI cause uma alta capacidade racional, justamente por existir uma desproporção de indivíduos que também pontuam alto nos testes, mas apresentam desempenho pífio em sensatez ou realismo, como o exemplo de sua correlação positiva com filiação político-ideológica à esquerda. E que não precisa se limitar a ela, se também existe uma correlação claramente positiva entre alto QI e liberalismo econômico³, uma ideologia que prega por um estado mínimo e/ou domínio do mercado sobre a sociedade e que mostrou-se muito disfuncional quando foi integralmente adotada, especialmente nos EUA dos anos 20 do século XX, contribuindo para causar a crise de 29: a pior crise econômica do capitalismo que se tem registro..
Alto QI não garante genialidade criativa, alta capacidade racional ou emocional⁴. Mesmo que se correlacione com as mesmas⁴, correlação não é causalidade e essa máxima é bem verdadeira nesse caso, se o próprio QI é o resultado de um teste, um efeito, e não uma causa.
O que leva a uma alta realização criativa, mesmo que tenha uma relação com potencial cognitivo, relativamente bem avaliado pelos testes tradicionais de inteligência, é a própria existência de uma disposição desta natureza, que não é o mesmo que afirmar que sejam exatamente a mesma coisa. E já existe um acúmulo de evidências de áreas relacionadas corroborando positivamente para a confirmação de uma natureza neurológica e cognitiva própria da criatividade⁵...
(Esse artigo mostra uma correlação significativa entre QI e um suposto "teste de racionalidade", que na verdade é só mais um teste cognitivo que analisa "pensamento lógico" com base em perguntas sobre questões hipotéticas e fora de contextos reais, como eu critico mais embaixo nesse texto).
E o mesmo pode ser dito sobre a racionalidade, de ser o seu próprio domínio e não apenas ou exclusivamente uma derivação discreta de um construto maior, como a inteligência. Se para ambas as capacidades, a maioria daqueles que pontuam alto em testes de inteligência, também incluindo notas escolares e acadêmicas, não se tornam geniais e nem mais racionais, geralmente não por: falta de oportunidades, trajetória de vida que leva a pessoa a buscar por outros interesses, etc.. ou qualquer outro motivo que justifique essa assimetria sem sacrificar o mito unitário sobre ser mais inteligente ou talentoso, mas simplesmente por causa de uma expressão normal, ou baixa, destas características, que quando se manifestam mais expressivamente, tendem a fazê-lo de maneira intensa, obsessiva, praticamente incontrolável, movidas por uma grande motivação intrínseca...
3. Superdotação, talento e genialidade não é racionalidade
Poderia ser, se aquele mito da inteligência humana, comentado logo no início, estivesse certo. Mas, na realidade, nossa inteligência não é apenas complexa por si mesma, apresentando um amplo rol de potencialidades; também tendem a se distribuir de maneira diversa entre nós, inclusive suas expressões mais altas... E se não parece difícil entender que alguém musicalmente talentoso não é necessariamente alguém que será mais inteligente em termos acadêmicos, o mesmo pode ser dito sobre a capacidade racional. No entanto, ainda parece mais difícil de fazer o mesmo sobre ser intelectualmente dotado, porque faz sentido que, quem apresenta um alto potencial para absorver conhecimentos e informações, também deva ser excelente em julgar o que absorve, isto é, de apresentar a mesma excelência em sua capacidade de raciocínio ou de discernimento.
Mas, alto QI não é o mesmo que infalibilidade intelectual e moral
A maioria dos que são tradicionalmente considerados como superdotados podem ser tão falhos quanto qualquer outro grupo humano. Não são super humanos porque apresentam uma maior capacidade ou potencial, até porque a inteligência humana, novamente, não se limita a memorizar informações ou absorver conhecimentos, mas também de julgar o que está memorizando ou absorvendo; o que está pensando e fazendo. É por isso que a metacognição ou autoconsciência, o autoconhecimento, e outras qualidades, como a honestidade e a humildade intelectuais, são fundamentais para o desenvolvimento da inteligência racional, e parece que são muitos aqueles dotados de altas capacidades cognitivas ''quantitativas'' que não apresentam as mesmas altas capacidades em suas facetas mais qualitativas, como a própria racionalidade. Parece um contrassenso, mas mostra apenas que as populações humanas não têm evoluído sem se diversificarem em grupos mais cognitivamente especializados...
4. A racionalidade está mais alheia à dinâmica histórica e cultural da evolução cognitiva humana
A maioria dos seres humanos não estão evolutivamente inclinados a priorizar a busca pela verdade objetiva e imparcial em suas vidas, mas de fazê-lo quanto aquilo que determinam como "suas verdades", geralmente reflexos de si mesmos, seus traços intrínsecos, e em interação com o meio (que, por sua vez, gera suas vivências, experiências e memórias). Eles também estão certamente mais inclinados a se adaptarem ao seu meio social, o que torna a expressão sistemática da racionalidade, muitas vezes, a escolha menos óbvia... Também porque se adaptam à situação ou momento e sem terem em mente o mais ideal, basicamente: tomam como realidade àquela em que vivem, mesmo se se trata de um ambiente precário tanto em estrutura epistêmica quanto em estrutura instrumental. Em outras palavras, a adaptação típica é sempre mais precária, sem ser baseada em uma constante análise racional sobre o que se percebe e o que se faz. Parecem ser bem poucos os humanos que literalmente pensam (frequentemente) antes de viver, sobreviver e se adaptar. O "pensar" de muitos é o mesmo que "racionalizar" o que se faz antes; o "pensar" depois, mais no sentido de justificar. E mesmo os que fazem, ainda é possível que muitos acabem cedendo à pressão da urgência do tempo presente e do espaço imediato caindo em um meio-termo entre o ideal e o precário, porém, eficiente (a curto prazo) alcançado...
Esse ímpeto de tomar como reflexo fidedigno da realidade, a própria auto projeção de crenças, expectativas e valores, também de personalidade ou temperamento e inteligência, ou características que apresente, definitivamente não se limita aos seres humanos, consistindo em um modus operandi universal de toda forma de vida. Essa projeção da própria subjetividade é muito mais ancestral, profunda e, portanto, poderosa que a racionalidade, que seria uma tendência oposta. Mas mesmo a própria alta capacidade racional pode ser só mais um tipo de projeção de subjetividade, se expressando paradoxalmente como um "viés do anti-viés". Independente se a racionalidade só é mais um tipo de autoprojeção subjetiva (ainda que essencialmente paradoxal) ou se é uma evolução a partir disso, o predomínio de subjetivistas entre seres humanos também acontece entre os "mais inteligentes" de nossa espécie. E essa tendência tende a se manifestar de maneira até mais intensa nesses indivíduos justamente porque suas capacidades cognitivas quantitativas superiores tornam muitos deles excessivamente confiantes sobre suas crenças e sobre suas próprias capacidades de discernimento moral e intelectual, isto é, de racionalidade. Em outras palavras, a própria inteligência atuando contra si mesma ou, as qualidades intelectuais desses indivíduos atuando contraditoriamente no sentido de, ao se reforçarem, aumentam o fosso com as suas deficiências qualitativas, como a própria capacidade racional. Em suma, uma excepcionalidade cognitiva que não seja a própria alta capacidade racional, pode amplificar o potencial de irracionalidade e isso é muito provável de acontecer quando se percebe uma deficiência nessa capacidade...
Ainda sobre a adaptação social, a maioria dos "mais inteligentes", mesmo se não se tornam crentes fanáticos sobre as "verdades" do código moral ou senso comum vigente à sua época e aos seus grupos de maior aderência, tendem a se sentir muito pressionados a se conformar ao mesmo, se por submissão silenciosa ou por endosso mais explícito, geralmente com base em um cinismo pragmático. Também por serem os mais atuantes nos centros de poder: mídia, governo, educação... Além disso, por apresentarem capacidades técnicas superiores, os centros de poder se tornam ímãs naturais para eles, constituindo boa parte de suas "elites"... A própria adaptação a um meio social é uma manifestação inequívoca de inteligência. Porém, muitas vezes, a mesma em contextos humanos, significa acreditar e endossar um predomínio de mentiras e meias-verdades, o oposto do princípio racional.
O "ser epistemicamente insensato como método adaptativo mais importante"
Historicamente, colocar-se contra governos ou sistemas sociais tiranos, uma conduta mais idealista, mas também racional, tem sido mais perigoso do que se submeter aos mesmos em conformismo explícito.
A alta capacidade racional, por mais virtuosa e valorosa possa ser, especialmente em teoria, é uma anomalia fenotípica da inteligência humana, e sua expressão, como demonstrado, não vem com garantias significativas de benefícios pessoais, se tende a expor aqueles que a desenvolvem a um risco maior perante grupos políticos em disputa pelo poder ou que já estão atingindo um bom patamar de hegemonia...
O único cenário, dentro de um meio social, em que uma alta capacidade racional pode servir de maneira muito mais benéfica e adaptativa é se aquele que a possui se manter calado a maior parte do tempo sobre o que compreende ou sabe melhor sobre o mundo em que vive, e que apresenta sérias restrições para ser abertamente compartilhado, copiando pensamentos e/ou comportamentos socialmente aceitáveis apenas superficialmente, para aparentar aos outros e convencê-los de ser mais um deles. Mas parece ser muito mais comum ao mais racional ou sensato não conseguir se conter a partir do momento que passa a perceber o quão problemática é a sociedade em que vive, provavelmente por causa de sua capacidade de predizer o que vai acontecer pelo que está acontecendo bem como o seu forte ímpeto de abordar o seu mundo e sua escala de tempo não apenas a curto prazo e subjetivamente enviesado, chegando inclusive a priorizar o longo prazo e o objetivo... Pois para conseguir fingir tão bem, como pelo cenário "ideal' proposto, é necessário um desprendimento emocional aos fatos, aos outros, de aprender a agir fria e cinicamente... Uma tarefa árdua, talvez impossível para a maioria dos que conseguem alcançar os maiores patamares de sensatez, se a mesma tende a encontrar-se intimamente associada com a capacidade de sentir empatia e compaixão, uma espécie de grande sensibilidade pela verdade, bem como pela mentira; como se fosse um sentido desenvolvido... E se essa mesma sensação imperativa de perceber verdades, subjetivas ou objetivas, vale tanto para irracionais e normais quanto para os mais racionais: os próprios traços de personalidade e de cognição qualitativa (ou que, em constante interação com os traços quantitativos, geram a segunda) se expressando como um tipo de orientação (muito semelhante à "orientação sexual") e não como uma escolha livre de condicionamentos, como muitos pensam se consistir o mítico "livre arbítrio"... A diferença encontra-se em o quão subjetivamente enviesado se está na determinação do que é considerado como verdade ou mentira, ou também, como dito acima, "qual tipo de viés dominante", o "da razão" ou um típico ou comum??
É por isso que parece existir um conflito constante entre racionalidade e adaptação social, isto é, entre um tipo emergente e mais evoluído (porém, simples em sua essência) de inteligência, unicamente humana, e um tipo muito mais antigo; e que, em termos evolutivos, até pode ser especulado se a alta capacidade racional não tem sido mais selecionada, justamente porque muitos daqueles que a expressam tendem ser os que se revoltam contra governos tiranos ou sistemas ideológicos predominantemente irracionais e os primeiros que são identificados e eliminados do meio social... Então, a cada geração humana, os mais racionais, em média ou desproporcionalmente, acabam se situando às margens da sociedade, menos propensos a apresentar um ciclo normal de vida, o que inclui a própria reprodução e com similares, sem que ocorra um processo contínuo e cumulativo de reforço do seu fenótipo psicocognitivo, com base na realidade da hereditariedade combinatória de traços intrínsecos complexos, contribuindo para mantê-los minoritários...
Por uma avaliação em múltiplas perspectivas (método importante da própria racionalidade), ser mais racional, mesmo que se consista em ser mais realista e, portanto, de apresentar uma melhor compreensão sobre o mundo em que se vive, na prática da adaptação social cotidiana, tende a ser o mesmo que agir com insensatez: de se prostrar perigosamente distante de um ângulo mais favorável ao próprio ajuste no meio em que se situa, justamente porque, como um excelente identificador e solucionador de problemas, costuma se inclinar para apontar para os mesmos do que de adotar uma postura conivente, conveniente ou neutra/indiferente. Porque, ao longo de nossa história, o insensato tem sido o sensato na maioria dos ambientes sociais humanos...
Mesmo entre os "mais inteligentes", com base em uma avaliação psicométrica e academicamente tradicional, parece que a maioria que se conforma a uma ordem moral e estrutural vigente não o faz apenas por pura astúcia, mas também por razões pessoais aos quais não tem pleno controle, o que de qualquer maneira reitera a deficiência em racionalidade.
Muitos "com alto QI" são individualistas
Agem por auto interesse, pouco se importando se o que defendem ou fazem pode prejudicar a sociedade em que vivem, a longo prazo. A correlação positiva entre alto QI e esquerdismo, que prega por uma espécie de individualismo complexo (pluralismo identitário no comportamento pessoal, com exceções, mas coletivista em pensamento), mas também com o liberalismo econômico, pode ter como fio em comum essa propensão do "mais inteligente" em ser individualista. Enquanto que o mais racional tende a chegar a conclusões sensatas em que seus próprios interesses não são sempre priorizados, (sempre) buscando por um equilíbrio: entre se submeter ao coletivo ou de enfatizar excessivamente a si mesmo, parece comum entre os "mais inteligentes", por critérios psicométricos e acadêmicos, priorizar a si mesmos sem moderação. Além disso, esse egoísmo individualista que corrompe o discernimento moral e intelectual, também tende a ser baseado em uma visão simplista e de curto prazo. É por isso que, muitos desses indivíduos, mesmo os "mais inteligentes", acabam prejudicando a si mesmos a médio e longo prazo, quando só conseguem ver e priorizar seus interesses imediatistas ao invés de buscarem ampliar suas visões de mundo para além do próprio umbigo. Também parece comum entre os "mais inteligentes" egoístas disfarçar esse egoísmo individualista que apresentam em medidas políticas aparentemente altruístas ou por argumentos que soem inteligentes. Enfim, parece ser uma tendência muito forte que, maior o potencial cognitivo, maior o potencial de racionalizar a si mesmo: crenças e comportamentos, independente se o que pensa ou faz é sensato ou racional.
A racionalidade e especialmente a alta capacidade racional seria uma evolução simplificada da inteligência, em sua essência, enquanto as demais capacidades cognitivas seriam manifestações mais marginais.
Em outras palavras, a alta capacidade é uma versão otimizada de capacidade perceptiva e adaptativa, porém, como o mundo humano tem sido dominado pela irracionalidade de governos tiranos, mostra-se menos funcional na prática...
Uma outra explicação é que, apesar de ainda essencialmente simplificada (talvez o caminho mais adequado em relação à complexidade excessiva da própria inteligência humana), a alta capacidade racional (na verdade sua expressão mais idealmente adequada) seria uma evolução transcendente da percepção tipicamente contextualizada ou especializada ao meio adaptativo, universalmente determinada desde os primeiros esboços de vida terrestre, em que aquele (humano) que a possui apresenta um desenvolvimento mais robusto desta que é uma das excepcionalidades cognitivas mais únicas à nossa espécie, essa capacidade de transcender, mesmo que não totalmente, a própria subjetividade, conseguindo sustentar interesse sobre aspectos da realidade primariamente alheios às nossas perspectivas imediatistas de sobrevivência e adaptação. Mas como nossa espécie tem continuamente evoluído mais próxima à maneira típica de adaptação... Enquanto a maioria permanece em um estado de provincialismo existencial e perceptivo, independente de seu potencial cognitivo, uma minoria tem alcançado níveis mais amplos de capacidade perceptiva, de compreensão sobre o mundo em que se vive, sem sempre cair em distrações, armadilhas ou tentações da própria complexidade de nossas inteligências.... Eu já usei certos termos de minha autoria para descrever essas diferenças de estado ou nível, por exemplo, os níveis de consciência: realismo ou nível animal, surrealismo ou nível humano mais típico ou ideológico e o hiperrealismo ou nível humano mais excepcional ou filosófico.
5. Racionalidade não é o mesmo que erudição
Realismo não requer um grande acúmulo de conhecimentos, mas de se firmar no que é mais importante, visando uma compreensão mais precisa sobre o mundo, sem a necessidade de ser profunda ou detalhista. Não é preciso saber muito para saber bem sobre o que está acontecendo: influências, estruturas, métodos... Não é preciso acumular múltiplas informações sobre a geopolítica brasileira ou americana para poder tecer avaliações imparciais e objetivas sobre as mesmas (por exemplo).
A racionalidade é mais sobre a capacidade de "separar os feijões bons dos ruins" do que de acumulá-los (nessa analogia, feijões representando informações). E isso não exige necessariamente uma alta capacidade, pelo menos não do tipo tradicionalmente reconhecida, o que pode explicar sua correlação modesta com alto QI (não confundir com as pontuações em testes de raciocínio lógico, que não é o mesmo que racionalidade). Na verdade, é muito mais engenhoso fazer uma ginástica mental para racionalizar as próprias crenças, especialmente as mais equivocadas, do que agir como o menino pobre que aponta para o rei nu, tal como no famoso conto infantil "A Nova Roupa do Imperador"... Não é preciso ter PhD para saber que raças humanas existem, que as pessoas apresentam diferenças de comportamento e inteligência e que homens e mulheres são realidades biológicas e não apenas ou primariamente culturais... É óbvio que, para explicá-los, saindo um pouco de apenas apontá-los como fatos, é preciso desenvolver o raciocínio. Ainda assim, não é um esforço tão grande que exija uma especialização profunda. Porque a racionalidade é mais, ou primariamente, sobre reconhecer fatos e de fazê-lo com grande frequência do que de se aprofundar nesse reconhecimento.
Na verdade, até por uma lógica básica de qualidade melhor que quantidade, acumular muitas informações pode até complicar "o meio de campo". No mais, para a racionalidade, a qualidade da informação é mais importante do que a quantidade de informações que memoriza.
Interessante pensar também que, aquele que se envereda em conhecimentos muito complexos, pode estar em maior risco de se perder quanto aos conhecimentos mais básicos (mais influentes em nossas vidas), justamente os que são prioritários ao realismo racional. Uma explicação potencialmente plausível é que o mais racional é como um pensador generalista ou holístico, especializado nesses conhecimentos básicos, que também são os mais constantes e influentes em nossas vidas, e então mais relevantes para uma compreensão realista ou precisa do mundo. Enquanto que um gênio científico seria aquele que mais se aprofunda sobre campos específicos do conhecimento humano.
Por algumas instâncias comparativas, a racionalidade é o oposto da criatividade e, portanto, da genialidade, ainda que sua alta expressão seja uma excepcionalidade intelectual por si mesma. Se o gênio criativo é o "ver além", o racional é "apenas ver o que se está vendo".
Ou também que, como eu já comentei, primariamente sobre a filosofia e o filósofo mais autêntico, a inteligência racional, por se centralizar no julgamento, seria uma "especialização da generalização", se tudo o que fazemos, também julgamos, do pensamento à ação...
O mais racional apenas aponta para um fato e não o nega pelos seus sentimentos ou por convicções pessoais. Ou aprende a não negar o máximo que conseguir. Em termos cognitivos, a racionalidade é apenas a expansão de nossa percepção objetiva para além da dimensão sensorial, também para o mundo abstrato: estatísticas, generalizações, comparações, etc...
A racionalidade parece ser mais exigente psicologicamente, de lidar constantemente com a tentação de adulterar a percepção da realidade para afagar os próprios sentimentos, do que cognitivamente, se a percepção factual direta, ainda mais de fatos óbvios, tende a ser muito mais simples do que a elaboração de mentiras complexas que os rodeiam.
6. A racionalidade é a inteligência humana em tempo real, funcionando em sua máxima expressão ou totalidade, enquanto que os métodos tradicionais avaliam as partes de um todo e sem contextualizações
Eu adoro usar o exemplo do teste de direção, que todo aquele que pleiteia dirigir deve fazer, como comparativo aos testes cognitivos e às comprovações reais e cotidianas de inteligência, por ser tão didático mostrar que um teste continua sendo um teste e a maneira mais decisiva de comprovação de capacidade, risco ou qualquer outra variável, é pela própria experiência, de sua realização...
Então, uma desproporção daqueles que pontuam alto em testes cognitivos e em outras avaliações comparativas, aparentemente diretas de inteligência, mostram-se assimétricos na comprovação constante da mesma, de como pensam e se comportam ao longo da vida. Justamente porque um teste não é o mesmo que um cenário real ou pra valer, e que avaliar capacidades isoladas e sem contextos não é o mesmo que avaliar tal como se apresentam na realidade, em interação contínua e dentro de cenários reais... Uma explicação para esse possível paradoxo é o mesmo que ajuda a entender por quê excelentes motoristas que passam com louvor em testes de direção podem se tornar motoristas imprudentes e perigosos nas ruas e estradas da prática cotidiana. Mas uma autoconfiança exagerada não é apenas um traço problemático de personalidade, justamente porque a inteligência humana não funciona sozinha ou mesmo que, a própria personalidade faz parte dela. O problema de considerar apenas como inteligência: capacidades técnicas, que parece ser comum a muitos dos que se especializam no estudo dos tópicos relacionados.
Um dos testes mais relevantes nessa comparação e demonstração do quão alheios os testes de QI podem estar em relação à inteligência racional em sua prática no mundo real é o de detecção de padrões lógicos em sequências numéricas, formas geométricas... Pois se eles conseguem detectar essa capacidade nos próprios testes, quando extrapolados para a vivência da realidade, não parecem replicar com grande sucesso o que encontram nos seus resultados. Tal como um grande estrategista de xadrez necessariamente não será um grande estrategista militar ou político. Porque uma capacidade isolada ou específica não se replica em um cenário da realidade que exige um recrutamento de várias capacidades atuando ao mesmo tempo, se não é apenas mover peças em um tabuleiro, mas de lidar com uma série de situações em contextualização constante: pressão social; tomadas de decisões com base em custo-benefício; controle emocional... Mas voltando aos testes de detecção de padrões, se fossem contextualizados no mundo real, não seria apenas ou especialmente sobre detectar padrões em sequências numéricas determinadas ou formas geométricas, e sim de construir e estabelecer mapas da realidade em que cada peça é como um fato relevante, e cada fato tem um papel hierárquico dentro desses mapas. E para isso, há de se ter acesso a uma série de recursos cognitivos e não-cognitivos: autoconhecimento para saber o quão capaz se está para abordar certo tópico; autocontrole emocional, de modo que o ímpeto de sobrepor crenças e expectativas pessoais esteja bem controlado; capacidade de raciocínio sem que apele para falácias, etc... Mas a simples capacidade de distinguir fato de mentira já seria suficiente, se não fosse pelo aspecto ético ou moral de, além de reconhecer uma verdade, também de defendê-la e é aí que, para muito dos tais "mais inteligentes", e independente da ordem ou hierarquia dos fatores causais, o comprometimento pessoal com a razão não é apenas completamente facultativo, mas também percebido como mais prejudicial do que benéfico.
Conclusão
Esse texto é uma compilação do que tenho escrito em textos menores e pensamentos sobre esse que é o maior paradoxo que tem sido encontrado sobre QI e suas correlações, em que se percebe, na prática do mundo real, uma relação apenas moderada entre altas pontuações em testes cognitivos e alta capacidade racional, enquanto se esperaria logicamente por uma relação significativa. Eu acredito que todas as hipóteses apresentadas são relevantes para explicar esse paradoxo, cada uma contribuindo tal como um ângulo de percepção e análise complementar, mostrando que: os testes de QI ou qualquer outro tipo de avaliação similar, como as provas escolares, avaliam certos aspectos da inteligência humana, mas não direta e precisamente outros aspectos, diga-se, muito importantes, como a racionalidade, e apenas por isso, já é possível começar a entender porquê não se correlacionam tão positivamente. Anedoticamente falando, parece haver uma desproporção de indivíduos "de alto QI" que apresentam deficiências em capacidade racional. Especialmente se a maneira mais precisa de analisá-la é pela qualidade de um sistema individual de crenças que é construído e expressado durante toda vida, e não por esses testes que têm sido criados, que se baseiam em perguntas sobre pensamento lógico a partir de cenários hipotéticos ou isolados de contextos do mundo real; se a capacidade racional só pode ser avaliada na prática da inteligência em cenários de vivência legítima.
A percepção dessa contradição, a meu ver, é muito importante, se tratando do tópico da inteligência humana, pois é a partir de uma compreensão realmente objetiva que se pode começar a substituir por informações factuais correspondentes alguns mitos poderosos sobre a mesma, que têm sido transmitidos por gerações, e a repensar muito do que tem sido imposto como diretriz social ou política com base nesses mitos. Além disso, o entendimento da própria racionalidade humana inevitavelmente contribui para a compreensão da realidade vivida e de como poderemos melhorar nessa que é uma, se não a função mais importante da inteligência.
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