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sexta-feira, 27 de março de 2020

Diversidade e hierarquia de verdades


Diversidade e hierarquia de verdades

Verdade: é a reflexão da ou de certa realidade pela perspectiva de um indivíduo. Realidade: aquilo que existe. Verdade: aquilo que é percebido e/ou descrito da realidade. Verdade é praticamente sinônimo de realidade por ser seu eco, de fora para dentro de uma subjetividade, e até pode ser compreendida como um conceito que amplifica o que é real.

A priori, toda verdade é subjetiva porque só pode existir a partir da consciência e/ou percepção de um indivíduo ou ser vivo. No entanto, como é percebida ou sua natureza, faz com que ocorra uma diversificação de tipos que procurarei explicar aqui, de acordo com o meu entendimento, e buscando fazê-lo com base no máximo de precisão factual ou neutralidade ideológica.

Verdades subjetivas: são as nossas reações ou sensações que são verdadeiras e, portanto, verdades ou fatos derivados da interação indivíduo x meio. Por exemplo, se eu sinto frio, então, é uma verdade subjetiva porque minha sensação de frio é verdadeira. Também podem ser definidas como verdades abstratas/derivadas, por se referirem a comportamentos ou reações, por interação.

Verdades universais ou realidades: são fatos ou existências que podemos perceber justamente pela neutralização das nossas atribuições qualitativas, isto é, definindo o objeto sem distorção de perspectiva. Por exemplo, a existência de uma pedra. Se eu só conseguisse tocar na pedra, se não pudesse enxerga-la, então, minha sensação de toque à ela, meu reconhecimento de sua existência por esse canal ou sentido, seria uma verdade universal, talvez incompletamente percebida.. de sua natureza física sendo reconhecida por minha mente. A existência da pedra, independe da minha consciência qualitativa ou reativa à ela e, portanto, é uma verdade universal, quando percebo sua natureza e não a minha projetada nela.

Se eu sou percebido pelos outros com base em minha natureza, preferencialmente, pelo meu ''todo'', então essa percepção é uma verdade universal. O que os outros percebem de mim com base em suas atribuições reativas, são verdades subjetivas.
 O que as difere é o grau de precisão dos critérios de identificação e categorização. Mais objetivo, mais universal.
 
Verdade x realidade

Se eu tenho a pele branca, então isso é uma realidade, um fato. Isso ainda não é uma verdade universal porque depende do nível de acurácia visual quanto a esse meu atributo. Porque a espécie humana apresenta, em sua maioria, uma excelente capacidade visual, então, a cor da minha pele é facilmente concebida para quem enxerga como uma verdade universal, que é quando minha natureza é percebida por todos os indivíduos capazes de enxergar, de acordo com a naturalidade visual de ''nossa'' espécie. A pele humana, por esse sentido, também é uma verdade universal.

Verdades pragmáticas: são condições lógicas e/ou verdadeiras para comportamentos ou fenômenos (cadeias de comportamentos).  Contrastante às subjetivas, as pragmáticas são menos no sentido reativo-emotivo/sensorial e mais no responsivo-cognitivo. Por exemplo: eu sinto frio (verdade subjetiva). Se eu sinto frio, então eu preciso me esquentar para não ficar com hipotermia (verdade pragmática.. ou lógico-primária). A subjetiva é primariamente reativa. A pragmática é uma reação ou resposta cognitiva à reação subjetiva do corpo. Mas, também em relação às facetas universais de fatos ou verdades universais que podem ser capturadas, isto é, pode se expressar a partir da subjetividade de um indivíduo ou ser descrita como resposta lógica de uma verdade universal. Exemplo: ''se eu estou sendo ameaçado, então, eu preciso me proteger''. Resposta pragmática/verdadeira a uma sensação ou verdade subjetiva [o medo]. E por uma perspectiva impessoal ''A Polônia reagiu à invasão da Alemanha, na segunda guerra mundial''. Interações coletivas e historicamente datadas sendo reconhecidas por um indivíduo.  Podemos concluir que as verdades pragmáticas são basicamente lógicas, não necessariamente racionais.

Verdade essencial: é a essência ou o cerne das realidades particulares. São origens e universais. Alguns exemplos que já usei em outros textos: a verdade essencial das guerras humanas é a disputa territorial ou de poder entre machos da espécie. A verdade subjetiva é a sensação do indivíduo direcionada para certo objeto de análise ou interação mental e intelectual. Ela é uma verdade porque a sensação subjetiva existe. Mas isso não significa que não seja predominantemente limitada ou diluída de veracidade, especialmente a partir do momento que busca se passar como essencial. É o caso do soldado ou do militar que define a causa para as guerras humanas como uma ação plenamente racional a partir de sua percepção conclusivamente subjetiva.  Verdades essenciais são os verdadeiros porquês. As subjetivas são os nossos porquês baseados no que estamos sentindo. As universais são tudo aquilo que existe, e que percebemos por suas próprias naturezas. As pragmáticas são condições, regras ou objetivos verdadeiros, que contêm mecanismos lógicos.

No caso da guerra
Subjetiva: o que eu sinto sobre ela [verdade sensitiva]
''Eu sinto que a guerra é ruim''

Universal: o que é a guerra [verdade descritiva]
''A guerra é um evento conflituoso em que grupos antagônicos duelam uns contra os outros a partir de ofensivas estratégicas buscando a defesa  ou o avanço em território alheio''

Pragmática: os mecanismos que resultam na guerra e os que são usados durante a mesma..
''Se o meu território é invadido, então eu posso declarar guerra ao invasor. Eu posso invadir aquele território se eu almejo suas riquezas naturais''
''Se um povo x é ameaçado, ele pode reagir de maneira y que pode resultar em conflito armado''.

Essencial: o derradeiro porquê das guerras
''Disputa territorial de machos héteros''

Uma pedra

A minha reação à pedra é uma verdade subjetiva [''é uma pedra bonita'']
A minha percepção à sua natureza elementar é uma verdade universal
[''é uma pedra e não uma flor porque ela não é uma planta, porque é ...'']
Os mecanismos lógicos que a produziram e também os que mantém sua integridade física, são verdades pragmáticas [se a pedra tem nível de dureza x e recebe um impacto xx então é provável que irá se esfarelar ou ao menos se quebrar]
Sua origem, o porquê de existir e sua utilidade, são verdades essenciais
[a pedra se origina do solo, é um pedaço dele. Sua função elementar ou universal é sua própria autoexpressão e não tem uma função além disso, conhecida, por si mesma, individualmente falando].  

Verdade subjetiva: sensação verdadeira, de probabilidade de reação, de uma perspectiva de existência em contato com a realidade. ''O que eu sinto sobre o objeto''

Verdade universal: o objeto ou fenômeno percebido em sua integridade, sem ser uma atribuição reativa ou qualitativa ''Eu descrevo/reconheço o objeto com base em sua natureza''

Verdade pragmática: os mecanismos que resultam e que mantêm a integridade existencial de um objeto. ''Como eu respondo à primeira reação do meu corpo a partir de certa interação'' ou descrição impessoal.

Verdade essencial: a origem, o porquê ou a utilidade do objeto. ''O que consigo capturar de essencial de certo objeto''

Verdade existencial: esta verdade permeia todas as outras, a meu ver, uma categoria à parte, pois se refere à intimidade de existência do indivíduo, sobre sua vida, suas lembranças, suas tristezas, suas alegrias, suas esperanças ou expectativas, sua aceitação do destino final que o aguarda, seus métodos de como viver, aproveitar sua única vida e de que maneira também para com o outro. O amor é subjetivo mas também tem uma verdade existencial. A detecção sensorial da natureza de um objeto é uma verdade universal, mas a lembrança ou o valor que remete, também é existencial. A prática com base em verdades pragmáticas, por exemplo, a busca pelo prazer sexual a partir do ato que o gera. E a essência do que é ser existência. As verdades existenciais são as que constituem o nível mais alto de discernimento moral bem como sobre a realidade.  

Hierarquia de verdades, das mais universais às mais particulares

As primeiras verdades, a partir da perspectiva do indivíduo, são as subjetivas, porque expressam suas sensações em relação ao contato com o mundo. São também as mais particulares mesmo que nelas contenham tons óbvios de universalidade, por exemplo, a sensação de frio como resultado de um corpo sentindo a/sua temperatura cair. A variação de temperatura é uma realidade e uma verdade universal, porque independe de nossas sensações para existir e porque a grande maioria dos indivíduos, humanos e não-humanos, sentem variações ou variantes térmicas ou sua natureza elementar. Como que a sentimos é uma verdade subjetiva. Ela também é pragmática, porque apresenta padrões ou objetividade previsível.

Em segundo lugar, em termos de importância, a partir de  uma perspectiva individual, temos as verdades pragmáticas. As universais, as essenciais e as existenciais.

Níveis de consciência

Mais baixo o nível de consciência, mais predominante à percepção da consciência são as verdades subjetivas. Apesar de sua natureza comparativamente inferior às outras, as verdades subjetivas são básicas e, portanto, fundamentais, pois são um dos nossos primeiros canais de sensação do mundo. E, por serem produtos de processos adaptativos, são dominantes ao nível realista ou lógico-primário de consciência, ainda também com a necessária percepção de verdades universais.

A compreensão das diferentes partes de uma realidade que resultam nos tipos de verdade só é possível pelo raciocínio abstrato. Portanto, apenas o ser humano que pode alcançar à plena consciência ou espelhamento das demais verdades. No entanto, mais absoluta ou essencial for a verdade, mais difícil de ser detectada por conta própria e plenamente aceita como uma variante factual, pela maioria de ''nossa'' espécie.

A humanidade é caracteristicamente a quebra do monopólio da subjetividade sobre a percepção individual.

O  surrealismo, enquanto desvio do realismo no que condiz à básica função da inteligência, de espelhar realidades, isto é, construir verdades, resulta na distorção das mesmas, por exemplo, endereçando a uma verdade essencial, atribuições subjetivas. O surrealismo é a confusão entre o que é subjetivo e o que não é.

''1.Eu sinto nojo da barata. 2.A barata, portanto, é intrinsecamente nojenta'' - 1. verdade subjetiva, a sensação. 2. Atribuição equivocada.

''Eu acredito que exista 'um criador' do universo'' - verdade subjetiva.

O hiperrealismo, enquanto continuidade evolutiva do realismo, supera e desloca a percepção do indivíduo [humano] para as verdades mais importantes e, ao mesmo tempo, as que exigem mais raciocínio, que são as universais, as essenciais e as existenciais.


Verdades são conhecimentos

Se existe uma tendência de exacerbar diferenças entre sinônimos decididamente próximos, então, ao menos neste caso, ei de se buscar fazer o oposto. Conhecer ou reconhecer são verdades que são conhecimentos. Sim, o nível de precisão e a natureza da verdade, força o estabelecimento de uma hierarquia com base nesse básico critério.

domingo, 8 de março de 2020

O capitalismo é um autoritarismo líquido



O capitalismo é um autoritarismo líquido

O que é autoritário?

É o que é imposto sem ser dialogado, negociado, refletido ou pensado com todas as partes envolvidas. Essa é a essência conceitual do autoritarismo. (Geralmente, autoritários tendem a mentir sobre as suas reais intenções àqueles que almejam controlar e/ou explorar).

Hierarquias entre indivíduos e grupos, e nem mesmo a imposição, são intrinsecamente condenáveis. São as condições e suas consequências que são mais moralmente relevantes. Afinal, dentro de uma dinâmica social, é comum ou esperado que uns assumam a posição de comando e outros de subordinação.

Se as condições impositivas têm sérias consequências para certos grupos ou classes (de indivíduos) sem ter qualquer razão ou imprescindibilidade moral para isso, quer dizer, se existem alternativas que consigam atender aos critérios elementares, de adaptação e ordem social, sem resultar em injustiças, então, essas condições também são extremistas.

Agora, podemos pensar se essas definições são aplicáveis ao capitalismo bem como às suas derivações ideológicas, como o liberalismo e o neoliberalismo...

O capitalismo não é a favor do indivíduo

Um dos maiores mitos sobre o capitalismo é de que enfatiza o indivíduo sobre o coletivo, em oposição às ideologias oficialmente reconhecidas como autoritárias como o nazifascismo e o falso comunismo. No entanto, não são os direitos do indivíduo que estão em jogo no sistema capitalista e sim o lucro que ele, sozinho ou dentro de grupos e organizações, pode gerar e que vai, em boa parte, para mãos certas de uma minoria esperta. O indivíduo é exaltado como um meio e não como um fim em si mesmo. Não tem nada a ver com respeito à individualidade.

O capitalismo é um autoritarismo líquido, pragmaticamente adaptável a qualquer nível moral de sociedade, se numa ditadura nazista, onde empresários tiveram importante participação, ou em nossas democracias representativas, superficiais. Se o capitalismo fosse realmente a favor do indivíduo, combateria as desigualdades sociais, a inadequação e a exploração do trabalho que causa, bem como os preconceitos aos quais tem sido historicamente indiferente.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Ainda sobre aquele estudo sobre genética e homossexualidade...

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Também seria interessante se tivessem analisado as variantes genéticas em comum de pais e irmãos daqueles que declaram ter tido ou ter experiências sexuais com pessoas do mesmo sexo...

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Pela sabedoria, ateísmo é religião que é conhecimento

O que é a religião?

É a busca pelo propósito ou finalidade de existir. Quando encaramos sozinhos o nosso tempo de existência. Quando a vida se confronta com o seu derradeiro destino. 

A religião são verdades absolutas ou conhecimentos existenciais e,  portanto, corresponde ao próprio âmago da filosofia, por ser o mais alto nível de realismo, de não apenas existir mas a partir do porquê de existir. É uma necessidade inerente à inteligência humana, já que para os outros seres vivos este porquê está contido em seu próprio modelo particular de existência.

Pela sabedoria, um falso paradoxo, porque o ateísmo é a base para a verdadeira religião, por ser um conhecimento existencial primordial: a inexistência da metafísica (continuidade infinita da vida) e/ou de divindades conscientes.  

 A partir daí, revela-se o real propósito da vida, contido em si mesma: o divino ou extraordinário e[ou] básico ato de viver. Ao invés da crença, a certeza desta realidade, de estar vivo e reconhecer a magnitude absoluta deste ato.

A mitologia distorce o significado da vida, tirando-o de si mesma. A vida perde a sua centralidade e se torna um meio para um fim. O fim é o sobrenatural, o metafísico. Mas, o metafísico é o nada, que categoricamente não existe. 

Ao contrário da tese popular, de que a religião, enquanto mitologia, nos conecta com uma dimensão superior de consciência e compreensão da realidade, na verdade, nos conduz, regressivamente, à condição "animal" ou pré autoconsciente, em que a vida é um meio para um fim, servindo a um propósito particular, pragmático, ao invés de um propósito essencial, em si mesma, sem saber o quão fundamental é o próprio viver, antes, durante e depois de sobreviver. A divindade ou a extraordinariedade do ato de viver é transferida para além daquela que o expressa, com grande ênfase na perpetuidade da espécie. Por causa da perda do instinto reprodutivo, como um dos prováveis efeitos do aumento escalonar da inteligência humana, precisamos de uma razão para procriar, daí também o aparecimento de mitologias, já que sem a superimposição instintiva de tarefas, procriar deixa de ser uma necessidade absoluta e se transforma numa escolha mediada pela persuasão.   

Para a ideologia mitológica é preciso um criador e seu produto ter uma finalidade diretamente servil a quem o criou. Mas, antes de ter um propósito particular, o viver, a vida tem um propósito universal ou igual para todas as outras existências, existir.

Então, o que é o viver, em sua verdade essencial?

A vida, em sua essência, existe como espelho, testemunha e mensageira da realidade. É um espelho, por ser parte da realidade, por "olhar de volta". É testemunha, por vivenciar a realidade, por reconhece-la, independente de seu alcance de percepção ou nível de consciência, e é mensageira porque vive e transmite sua realidade particular ao longo do espaço/tempo. O que é, o que vivencia e o que transmite são verdades ou reflexos da realidade por sua perspectiva.

Viver, mais do que ''viver'', é ser, sentir e transmitir verdades (ou conhecimentos) de modo que, contribuam para maximizar sua qualidade de existir. 

[O verbo ''viver'' é uma daquelas designações semânticas que não expressam objetividade em seu conceito. O verbo ''matar'' é mais objetivo ou auto-entendível que o verbo ''viver'', por exemplo.] 

O ser humano, ao transbordar sua própria subjetividade ou limite sensorial adaptativo, passou a saber mais do que poderia saber ou suportar o que, se por um lado, atiça a sua curiosidade, por outro também sua necessidade de fantasia ou de fuga, para viver ou suportar essa perspectiva que vai muito além de si mesmo, que revela sua pequenez [finitude, fragilidade]. Todas as outras vidas têm em seu viver "tudo o que precisam" saber ou compreender. O ser humano sabe aquilo que não sabe e do que não gostaria de saber. Para os outros seres vivos, seus limites perceptivos são máximos. Para nós, são como fronteiras ou limites relativos, onde é inevitável a percepção de horizontes além delas, e não apenas uma perspectiva verticalizada ou autocêntrica de existência, mesmo que acabemos nos comportando de modo tão ou mais egoísta, até mesmo pelo artifício da mitologia, que a reconstitui. Pela descoberta da filosofia, extrapolamos a zona de conforto ou de alienação natural, em que apenas se sabe aquilo "que se deve saber", para a sobrevivência. Se a religião é, em sua verdade, uma perspectiva essencial [centro universal] de conhecimentos ou verdades além-subjetivas, a mitologia, novamente, visa reconstituir o domínio absoluto da subjetividade, por exemplo, pela criação de deuses ou fenômenos antropomórficos, identificáveis, que iludem o ser humano de ser absolutamente importante para o grande esquema das coisas, da existência. Todos os seres vivos são alienadamente autocêntricos [alguns bem mais que outros] pois tratam seus limites de compreensão do mundo como a totalidade do mundo. As narrativas mitológicas sempre se baseiam neste mesmo autocentrismo, nessa tentativa de ter todas as respostas e respostas 'gratificantes" ou suficientes para nos manter em nossas zonas de conforto, em que o mundo é explicado com base em nossas perspectivas, nós, supostamente, em seu centro, e não por si mesmo.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Inteligência e QI, domesticação e raciocínio

Inteligência e QI, domesticação e raciocínio

Quando nos deparamos com um texto excepcionalmente bem escrito, com palavras raras, que nem sabemos o que significam, geralmente temos a tendência de identificar o autor do texto como uma pessoa muito inteligente. É elementar, porque ter um vocabulário robusto e sofisticado sempre foi associado à inteligência. Nos testes cognitivos, ou de QI, esses aspectos verbais são os que mais se relacionam com o fator G, a tal partícula estatística que interliga os testes. No entanto, eu vou lhes mostrar que, talvez, o que parece um claro sinal de maior capacidade cognitiva, na verdade também pode estar mais relacionado com a domesticação.

Primeiro, precisamos falar um pouco sobre a linguagem. Vocês sabiam que a linguagem é uma convenção? O que é determinado como o certo e o errado de ser escrito, ortográfica e gramaticalmente, não é baseado totalmente na lógica. Por exemplo, a maneira como falamos tende a se dissociar da maneira como escrevemos, dependendo do sotaque. E isso NÃO É LÓGICO, porque criam-se regras gerais que são parcialmente negadas ou alteradas. A palavra ''aprende'' é uma dessas dissociações. O mais interessante é que muitos dos erros cometidos pelas pessoas na hora de escrever está baseado justamente nesse atrito entre a lógica e a convenção. Quando eu falo ''aprende'', na verdade, falo de acordo com o meu sotaque, ''aprêndi''. Pela lógica, tal como se fala é tal como se escreve, de acordo com a sonoridade dos vocábulos. Mas, os sotaques geralmente variam e, ainda foi convencionado que a única maneira ''correta' de se escrever essa palavra, até para diferenciá-la do ''aprendi'' [''aprendí''], é com seu término em ''e''. É um caso em que certa convenção se sobrepõe à sua própria regra ou lógica ''se escreve tal como se fala, de acordo com a combinação dos vocábulos''. Outro exemplo, que acho pertinente de ser usado nesse texto, encontra-se na língua inglesa, e é o uso do ''you are'', tanto para o singular ''você é'' quanto para o plural ''vocês são''. Ora, mas se existe o ''is'' para o ''é'', então por que é usado ''you are''? A lógica pura não explica isso, mas a lógica da convenção sim, e ela não precisa estar totalmente vinculada à essa primeira.

Memorizar uma convenção é o mesmo que ''memorizar leis ou regras'' impostas por terceiros ou coletivizadas por muitos. Tal como ''lavar as mãos antes de comer'' ou ''se sentar na cadeira durante a aula''. É fato que quando aprendemos algo, também estamos memorizando leis ou regras deste algo, de seu comportamento estrutural, já que todo conhecimento assim se constitui, aliás, tudo. No entanto, tem uma diferença aí, entre memorizar uma realidade concreta, forjada ou abstrata, e uma convenção ou determinada por outras pessoas, mesmo em relação à sonoridade das palavras, se o ''a'' terá um som mais fechado ou agudo, por exemplo. Estou concluindo, portanto, que uma boa parte da dita ''inteligência verbal'', não se consiste naquilo que a inteligência se caracteriza de modo mais significativo, que é o raciocínio afim de compreender uma realidade, mas na memorização ou ''raciocínio passivo'', no sentido de memorizar leis ou regras de convenção, isto é, de mostrar o quão obediente ou perfeccionista se está em relação às mesmas, e isso é domesticação ou comportamento domesticado.

Se os testes de QI se relacionam mais com os aspectos verbais, então pode ser que sigam similar realidade, em que, apesar de expressarem aspectos importantes da inteligência, também estão condensados de habilidades que são mais sobre domesticação ou capacidade de obedecer, internalizando regras de convenção, do que de raciocínio. A inteligência verbal, em sua qualidade, seria, ora pois, o raciocínio verbal, no intuito de compreensão das palavras, em sua aplicação cotidiana mais adequada, de reconceituá-las de modo mais preciso, ou de inventar novas [criatividade ou cognição verbal aprofundada], de preferência, palavras que não sejam sinônimos muito próximos de outras. A memorização além de uma capacidade de suporte ao raciocínio, portanto, também se consistiria em uma característica de domesticação, especialmente se for associada à internalização de regras de convenção. 

Por que [ainda] não existe um método filosófico?? E as múltiplas distorções da filosofia

Por que [ainda] não existe um método filosófico?? E as múltiplas distorções da filosofia



Se você tem ótimas habilidades verbais, vontade ou vocação para se auto declarar filósofo, paciência para ler alguns dos textos mais difíceis já escritos, apenas para constatar obviedades, capacidade de copiar este modelo obscuro de comunicação escrita, ego para dar e vender, novamente a paciência para se especializar em um ou mais de um filósofo do passado ou contemporâneo e decorar suas ideias principais, então já pode até tirar o seu diploma de filosofia em uma faculdade mais perto de você. Mesmo se você for um crápula, sociopata, emocionalmente estéril, histérico, enganador, etc.... Nada te impede de incorporar a marca "filósofo" e exibi-la como broche de sapiência. Já, se você for mais criativo do que o estudante típico de filosofia e tiver insights filosóficos genuínos então será capaz de ocupar uma vaga na lista de filósofos, de fato, que ou aqueles que produzem, conhecimento, desta natureza. Mas, mesmo neste caso, continuaremos a ver persistir o mesmo problema, porque você pode ter qualquer nível de caráter, o que importa é se consegue corresponder a cada uma dessas "exigências" para ser considerado como filósofo por outros filósofos. Parece muito fácil constatar que o filósofo deveria ser aquele que, antes de tudo, busca pela sabedoria. Mas existem alguns que já chegaram até a distorcer o próprio conceito da filosofia, dizendo que o filósofo é aquele que apenas inventa novos conceitos. Isso é parcialmente verdade porque muitas vezes precisamos criar novos termos quando conseguimos ou achamos que  desbravamos uma nova perspectiva, mas o "apenas" da frase é um erro absoluto, porque o filósofo não pode ser unicamente isso, já que a sabedoria não é apenas produzir novos conceitos. O nível daquilo que denominei de descaracterização arquetípica, da filosofia, como temos percebido, tem sido enorme, profundo, a tal ponto em que o típico auto declarado ou socialmente identificado como filósofo muitas vezes é insuficiente para alcançar as exigências do próprio termo-adjetivo, quer seja por falta de virtudes decisivamente autênticas ao ofício, ou pelo excesso de vícios que o renegam com veemência. Das muitas razões para isso eu acho que a inexistência de uma base comum de um método, tal como a ciência apresenta, é um dos principais motivos para esse estado lastimável que se encontra a filosofia. Sem uma base comum, qualquer um pode, se apresentar as características acima, se definir como filósofo, aliás, esta lista de cumprimentos estéreis com o compromisso filosófico real, que foram alçados como condições para adentrar à classe daqueles que deveriam representar os verdadeiros pensadores profundos, devotados na labuta do melhor pensamento. Para entender o porquê disso tudo achei interessante colocar ciência e artes nesta análise. Para quem não nasceu com essa fraqueza é fácil perceber que as mitologias são obras artísticas e que se diferenciam de outras obras quanto ao seu teor e significação dada pelo social ou coletivo. Mas, continuam sendo obras artísticas ou de fantasia. Considero a filosofia como uma mistura ideal entre as artes ou nossa necessidade de entretenimento, de distração, e as ciências, ou nossa necessidade de compreender o mundo em que vivemos para sobreviver. Quando o ponto de sua receita é ultrapassado, a filosofia pode ser tomada pelas artes ou pelas ciências. A filosofia ou filosofias que excedem o materialismo, aspecto característico das ciências, é porque foram dragadas pelas mesmas, se descaracterizando em relação ao seu ideal. E o mesmo quando são as artes que roubam ou ocupam seu lugar na sociedade. E o pior que podemos concluir é que esses dois processos têm sido constantes ou predominantes na história de atuação da filosofia, mesmo ao ponto de dizer que esta expressão sem base comum que dá maior atenção à sofisticação das palavras do que aos seus significados, quase que um braço da literatura, é a que tem sido a regra de sua prática. O pior acontece quando essa deformações do único caminho possível para a filosofia, são transformadas ou cooptadas para servir a interesses que são geralmente opostos à verdadeira ou nuclear prática filosófica, principiada pela sabedoria. 


 O ideal é que não existissem múltiplas filosofias, pasmem, quase sempre produto da falta de ponderação dos seus criadores, como quando um pensador enfatiza excessivamente o trabalho como virtude a ser seguida no dia a dia ou mesmo quando o faz em relação ao hedonismo, se ambos, sem o devido equilíbrio, poderão causar problemas como no funcionamento da sociedade, de maneira geral. Essas filosofias são, em sua maioria, reflexos dos seus próprios criadores e a priori isso não deveria ser de todo condenado já que é preciso começar de algum lugar  e todo indivíduo começa por si mesmo, porque a subjetividade nos é primária. No entanto, deveria haver um método que enfatizasse os aspectos mais centrais do melhor pensar, tal como um filtro necessário, com a verdadeira marca filosófica. E, como já constatamos, se existe um método então não é baseado no que é essencial para a sabedoria. E se chegou-se a pensar em métodos mais condizentes com a prática, continuaram como métodos teóricos, até mesmo por terem sido escritos sem o devido vínculo com a prática por meio de exemplos ou mesmo de adota-los na elaboração de novos sistemas capazes de superaram em qualidade os vigentes, por exemplo, os atuais sistemas econômicos. O processo de descaracterização arquetípica é quando não ocorre uma plena correspondência entre prática e teoria ou entre expectativa ou idealização e realidade. Por exemplo, o médico que não atua como tal, que ao invés de curar ou tratar, mata ou piora o estado de saúde dos seus pacientes. O filósofo, e talvez desde há muito tempo, mais adoece o seu paciente do que o cura, mais prescreve excessos do que a verdadeira ponderação, que é o verdadeiro tratamento. O resultado de tanta negligência com o que é básico é monstruoso, em que a filosofia se transmuta desde graves distorções ilusórias da, daquela realidade, que deveria ser a sua alçada primordial, com as religiões ou mitologias, até suas versões mais materialistas, se é que podemos chama-las de versões mediante o nível sofrível de correspondência. Esse segundo grupo, menos do que uma distorção grave ao ponto da ilusão, se caracteriza ou se dá a partir de uma ênfase significativa na periferia do corpo filosófico de trabalho, em que a sabedoria, seu núcleo mais importante, é sumariamente desprezada, ou quando dizem buscá-la mas o resultado chega a ser pior do que seu desprezo, e domínios derivados como a fenomenologia são transformados nos novos centros enquanto que são claramente periféricos. Desta maneira, pode-se produzir muitas teorias no mundo abstrato das palavras sem se preocupar com o sacrifício mas também com a benção que seria tomar a sabedoria como construção teórica e prática, derradeira. A filosofia se tornou a rainha das subjetividades, sua significância foi reduzida mesmo a estilos particulares de vida ou à capacidade de alcançar sucesso pessoal em um mundo mundano que a renega. O método filosófico reorganizaria, ou mesmo, organizará a filosofia, já que parece nunca ter sido plenamente feito, buscando tornar essa sua diluição grave em um erro prolongado do passado, que perdurou por muito tempo, em um passado que por enquanto, ainda vivemos, e pasmem, causado pelos próprios filósofos, e também por variedades de tipos de sub-filósofos. Naquilo em que contribuíram não há muito o que dizer se não agradecer pelo trabalho. Mas naquilo em que negligenciaram  há de se apontar para que a sabedoria comece a ser praticada não apenas para ou em direção ao outro mas começando para si mesma, e portanto, para eles mesmos. Então, para o começo do método é importante buscar destrinchar o conceito que lhe é mais caro ou fundamental, o da sabedoria.