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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Um exemplo de altruísmo patológico da direita: o anti-abortismo radical

Frequentemente, tenho me deparado com mais emocionados histéricos e, portanto, predominantemente irracionais, pelo menos em determinadas instâncias de debates e sobre certos tópicos, que tendem a se autodeclarar de esquerda no espectro político-ideológico. Minhas experiências ao longo de vários anos debatendo em redes sociais conclusivamente me levaram a pensá-los como os mais irracionais, por essa percepção de maior frequência... Porém, esporadicamente, é o outro lado da rinha de humanos/galos de briga, orquestrada pela classe política, que se apresenta de maneira desprezível para mim, de quando, mais uma vez, defendo pela sensatez, e uma mesma horda de emocionados irracionais aparece para defender absurdos que deveriam ser tão óbvios para qualquer ser humano adulto quanto são para mim e para outros que concordam que são absurdos. Sem falar dos ataques pessoais, dentre outras falácias que costumam usar como "argumentos"... Claro que tópicos diferentes tendem a inflamar tipos diferentes. Talvez, ubercapitalistas não tenham tanto gatilho sobre o tópico do aborto, não mais do que tradicionalistas... Justamente esse, que foi abordado por Nine Borges em sua página no Instagram, uma influenciadora e acadêmica brasileira altamente inteligente, no sentido de fazê-lo, mas se posicionando, de maneira completamente radical, contra a prática. Eu já escrevi sobre aborto e já cheguei à conclusão, que parece ser a única cabível, quando se aborda esse tema com imparcialidade, objetividade e ponderação: de que, apesar de ser, ele mesmo, uma prática radical, não pode ser proibido sob todas as instâncias ou cenários, salvando exceções importantes em que a saúde, a dignidade e a autonomia da mulher gestante também devem ser levadas em conta... Então, mesmo eu deixando claro que existem essas exceções importantes, mas que não estou defendendo pela banalização do aborto, essa horda de emocionados anti-abortistas apareceu para me atacar e defender absurdos: de que, se uma mulher for estuprada, ela deve sustentar uma gravidez completamente indesejada e traumática por nove meses, porque "a vida humana é sagrada"... De que ela deve se sacrificar emocionalmente, mesmo com a possibilidade de interromper a gestação nos primeiros dias, semanas ou meses, que seria o ideal, indiscutível para quem sempre busca se ater ao bom senso. Eu ainda pensei em um cenário ainda pior em que essa mulher hipotética, que é estuprada e engravida, está em um relacionamento: com namorado ou esposo, e que, pelo que parece, segundo a "sabedoria" anti-abortista, deveriam aguentar firmes nove meses nesta situação... Eu penso que se trata de um teste extremo, quase impossível, de resiliência para um casal comum... Outros cenários em que o aborto pode ser mais recomendável, é quando a gravidez mostra-se de alto risco à vida da gestante. Claro que existe a via do parto por cesariana. Mas, caso a gravidez mostrar-se muito perigosa, em que, nem mesmo uma cesária poderia resolver, ainda seria possível apelar para o aborto em qualquer etapa da gestação para salvar a vida da gestante. É um dos cenários mais extremos, se o ideal mesmo é que qualquer interrupção recomendada aconteça nos primeiros dias, semanas ou meses. Porque sim, os de direita costumam estar mais certos que: a autonomia da mulher sobre o seu corpo termina ou diminui significativamente quando engravida, porque não é mais ela sozinha, se passa a carregar um broto de vida humana em seu ventre. E que a vida começa na concepção... Ainda assim, porque não vivemos em cenários ideais em que medidas preventivas são suficientes para evitar uma gravidez indesejada (não confundir com "não-planejada"), esse "moralmente certo", na teoria, não se alinha perfeitamente com o "mais certo" na prática. Se o ideal seria que as pessoas evitassem a gravidez por vias preventivas, já que o aborto é a última opção, quando todas as outras medidas preventivas não funcionam ou não são acessadas. No entanto, ficou claro para mim depois de ser exposto aos argumentos dos anti-abortistas radicais que, eles defendem algo parecido ao veganismo e à recepção generosa de imigrantes pobres ou em situação de refugiado: um purismo moral que despreza contextos reais, mesmo estando mais certo na teoria. Exatamente como uma espécie de "altruísmo patológico", de um idealismo irrealista, só que os sacrificados desta vez são as mulheres grávidas por estupro, passando por uma gravidez de risco ou sem condições psicológicas, cognitivas ou sociais para sustentá-la, ou assumir o papel de mãe...


Também acho "divertido" a hipocrisia de apelarem para a "sacralidade da vida humana" em defesa pela proibição absoluta do aborto enquanto parece comum que, anti-abortistas radicais, por serem tipicamente de direita, sejam completamente indiferentes ao sofrimento da mesma "vida humana e sagrada" quando está "fora do ventre", por exemplo, defendendo ou justificando a exploração de trabalhadores por empresários capitalistas, tal como na discussão sobre o fim da escala 6x1... 

Até mesmo o apelo, primariamente esquerdista, à falácia do "lugar de fala" é usado por anti-abortistas radicais, especialmente por mulheres, como eu vi em minha "experiência imersiva" nesse grupo, o que não deixa de ser engraçado, já que, se eu, por ser homem, não "tenho autoridade identitária" para falar sobre direitos reprodutivos e autonomia corporal da mulher, então, pelo menos uma abortista que já abortou teria a mesmíssima autoridade que uma anti-abortista...

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