A “modernidade”, apesar do seu caos intrínseco, tem um lado muito positivo: de tanta “performance”, acabou pesando a gravidade das máscaras. Hoje, é difícil mantê-las por muito tempo ou de maneira convincente. O mundo, e as pessoas, ficaram mais fáceis de entender, e também de desprezar ou odiar. Mas também ficou mais pesado, psicologicamente. O mistério intocável de uma cultura que pregava a uniformidade no comportamento e no pensamento deu espaço a uma pluralidade no comportamento que ainda ou mesmo aumentou a pressão para a uniformidade do pensar. Estamos mais expostos, mais nós mesmos (?). Mas já sabermos quem somos aos outros e eles para nós, mesmo se por uma caricatura de julgamento, nos causa mais dor e inquietude do que de não cairmos diretamente nessa aridez fluida de impressões e relacionamentos. Em partes, daí a polarização e a decepção com o outro cada vez maiores. Nos tornamos tão objetivos que acabamos esquecendo do subjetivo, do complexo de cada um. Ao mesmo tempo que nos aprofundamos no cerne de cada um, acabamos nos esquecendo do todo, que só é possível de ser reconhecido e tolerado na intimidade e que parecia melhor administrado quando havia uma barreira de normalidade que, de qualquer maneira, nos unia superficialmente. Talvez fosse melhor o superficial de antes do que o profundo porém raso de hoje. Olhamos para dentro do outro e chegamos rapidamente no quê ou quem ele é, em suas entranhas, mas não enxergamos mais do que escutamos. Não adianta a profundidade sem iluminação. O tato nunca foi suficiente para aprender sobre o todo de cada um. Os estereótipos de grupos migraram para os de indivíduo. Hoje, o apelo a entender o complexo e o contraditório alheio, bem como de si próprio, é constante. Mas partir do discurso para a prática tornou-se uma tarefa homérica…
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