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sexta-feira, 31 de julho de 2026

O experimento da Islândia é um exemplo de que o meio social é mais importante que a biologia??

 Uma análise sobre a mudança intergeracional de comportamentos nesse país


Nos anos 90, mais de 40% dos jovens islandeses entre 15 e 16 anos reportavam uso exagerado de bebida alcoólica. Outros tipos de drogas psicotrópicas também eram consumidos em níveis comparativamente mais altos do que em outros países europeus, como o cigarro e a maconha. Então, a partir de uma série de medidas adotadas pelo governo da Islândia, esse "quadro boêmio" de sua juventude mudou dramaticamente de tal maneira que, hoje em dia, apenas 5% dos jovens em mesma faixa etária dizem consumir muita bebida alcoólica, em contraste aos 42% de três décadas atrás. Quanto ao cigarro e à maconha, as diferenças intergeracionais de consumo também impressionam, respectivamente: de 23% para 3% e 17% para 7%. 



Se essa mudança impressionante de comportamentos está diretamente associada com a introdução de medidas governamentais visando a adoção, desde cedo, de hábitos primariamente saudáveis, como a prática esportiva, bem como pela inibição de acesso a bebida alcoólica ou a outras drogas, então, ela é um bom exemplo de plasticidade humana, do rol mais amplo de capacidade de alterar ou mudar o comportamento, se não de um mesmo indivíduo, ao menos dentro de um mesmo grupo (seria interessante saber como estão os jovens islandeses que foram avaliados nos anos 90 e reportaram consumo alto de bebidas e outros tipos de entorpecentes). Também é um exemplo do quão forte o meio pode ser para nos influenciar; do quão socialmente conformista podemos ser... Mas também mostra que, mesmo antes, quando a "juventude islandesa" estava desproporcionalmente afundada em hábitos danosos à saúde física e mental, ainda não era 100% dela, já que 60%, uma maioria, não entrara nas estatísticas de "hábitos ruins'... Mostra que, mesmo quando existem forças homogeneizantes dentro de certos grupos sociais, é muito provável que haverá pelo menos uma minoria que não "seguirá o rebanho"... Isso também mostra a força da própria biologia como fator de influência no comportamento, talvez o mais importante. Porque tanto o jovem que cai no mundo do vício quanto aquele outro que não cai são, primária, e eu diria mais, deterministicamente influenciados por suas biologias comportamentais: características morfológicas dos seus cérebros e hormonais dos seus corpos que se refletem, quando em constante interação com o meio, em tendências de comportamentos que podem ser mais parecidas ou díspares. Porque não existe essa de: "'do nada', fulano começou a fumar, mas ciclano, no mesmo grupo, largou o cigarro". Para o comportamento, nunca existe o "do nada". Não existe uma tábula rasa dentro de nossas cabeças que nos faz seguir por caminhos completamente aleatórios, porque nosso rol de comportamentos que podemos adotar já está previamente determinado, se não nascemos literalmente sem cérebros, e se os cérebros com os quais nascemos são produtos de combinações dos materiais genéticos dos nossos progenitores, que já apresentam constituições mais individualmente específicas. Com certeza, nascemos com cérebros em desenvolvimento, mas nunca sem nada já presente ou determinado, que intuiria muitas partes em branco que apenas a experiência poderia escrever. Apesar de muitos acreditarem nisso, inclusive supostos especialistas em áreas do conhecimento relacionadas, o experimento islandês não prova que a genética ou a biologia humana é inteiramente um produto do seu meio social e cultural, mas que, por ser mais intrinsecamente plástica, apresenta um rol mais amplo de variação de comportamentos. Alguns ainda poderiam argumentar que vários fatores individuais e derivados do meio funcionando como uma cadeia de influências pode levar alguns ou muitos a seguir por certos caminhos. A "estrutura anatômica" de múltiplas causalidades muito específicas levando um indivíduo ou um grupo a adotar certos comportamentos não é intrinsecamente dispensável, pois pode servir como ilustrativo de uma trajetória. Mas não sustenta o argumento possivelmente utilizável que corrobora para a hipótese da "tábula rasa", se o mais importante ainda continuam sendo as predisposições mais intrínsecas. Tanto é que, existe uma correlação entre vício e certos traços de personalidade, como o neuroticismo, além de uma disposição fisiológica, por exemplo, de uma capacidade de sustentar altas doses de álcool circulando na corrente sanguínea e como isso pode contribuir para o estabelecimento de um ciclo vicioso específico a bebida. 

Além disso, tem outro fato interessante que não foi mostrado na reportagem do "link": de que o índice de criminalidade naquele país não diminuiu muito desde que o governo começou a tirar uma parte das novas gerações do cigarro, da maconha e do álcool, como mostrado no gráfico do "link" abaixo, mantido relativamente constante (geralmente muito baixo) desde aquela época até os anos mais recentes desta década de 2020. É interessante porque é comum atribuir parte de comportamentos irracionalmente antissociais ao uso abusivo de bebidas alcoólicas ou de drogas. E mesmo se existe uma relação lógica de alteração de comportamento induzido pelo uso exacerbado de substâncias químicas, ainda nesse cenário terrível de absoluta entrega a um vício, fatores mais intrínsecos, como os traços de personalidade predominantes, continuarão a ter uma influência, se não é todo viciado que sai por aí assaltando pessoas ou cometendo atos ainda mais graves, como a violência injustificada, até mesmo o homicídio. Isso pode provar que, certos comportamentos ou hábitos podem ser mais plásticos que outros, mas também que, esse experimento serve especial e idealmente para países com populações etnicamente mais parecidas com a Islândia, como os seus primos escandinavos, se populações mais distintas cultural, psicológica e cognitivamente tenderão a apresentar respostas diferentes... Ainda que se possa universalizá-lo como política pública de médio a longo prazo em outros países...


Respondendo à pergunta do título, o meio social, com certeza tem uma influência no comportamento humano. Mas o mesmo nunca é forjado unicamente pelo meio, se primeiro depende da biologia comportamental da população ou do indivíduo para que essa interação seja completa. E segundo que, se o "meio" nada mais é do que um conjunto arbitrária e variavelmente determinado de fatores, o único verdadeiro agente, e principal nessa dinâmica, é sempre o ser vivo/ser humano. E, portanto, é dele que emana as diretrizes e as determinações mais importantes. Tal como um ser humano não pode voar por si mesmo sem ter um maquinário biológico e capacidades física e mental que o tornem apto, ele também não pode superar suas próprias limitações, justamente os traços que o determinam e o caracterizam. Pois se, pelo exemplo do texto, ele não tem predisposições psicológicas e até fisiológicas para se tornar viciado em álcool ou drogas, é muito provável que não terá como caminho possível um cotidiano enfurnado nesse ciclo problemático de recompensa, mesmo se chegar a ser exposto a isso... 

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