Minha lista de blogs

Mostrando postagens com marcador eufemismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador eufemismo. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 17 de maio de 2022

Sobre realidade, eufemismo e linguagem ideal

 Com base na minha resposta a um comentário com essa frase abaixo, em um debate no YouTube.


"A 'realidade' é cruel... ela não liga para os seus sentimentos..."

A realidade não é cruel. Somos nós que lhe impomos ou não, crueldade. A priori, a realidade, além da esfera humana, não está nem aí pra nós, ela nos é indiferente. Somos nós, portanto, que deveríamos estar para nós mesmos...

A palavra "gorda", por exemplo, não existe, porque nenhuma palavra realmente existe. Pois se você considera uma pessoa "gorda" (absolutamente) inferior a você, isso é um sentimento seu, não da realidade, primeiro porque ela não está nem aí pra você nem pra mim, segundo que, se for considerar tudo o que existe como realidade, então somos todos micróbios insignificantes e, terceiro, porque, justamente por isso, somos todos iguais: insignificantes e temporários. Portanto, entre inventar eufemismos pra tentar interagir com os outros de maneira educada sabendo que, no fundo, somos todos iguais, que somos um mesmo caminho para um mesmo fim, e ofender por ofender, com essa desculpa de que "A realidade/eu acho que/eu sou, é cruel"... eu prefiro pelo eufemismo, do tipo que não distorce uma verdade ou que é subentendido que não o faz. 

É a linguagem neutra, não aquela que você está pensando, sem excessos por eufemismo ou por ofensa, sem intrusão emocional, que é ideal para a ciência.  

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Defeituoso ou deficiente? Demolindo a ideia popular que "(todos os) eufemismos escondem e distorcem a realidade"

A única explicação para o porquê de algumas ou muitas pessoas serem contrárias à polidez em conversações e uso de termos qualitativamente polêmicos é o caráter ou uma propensão ao sadismo/falta de empatia.

Um dia desses eu li em uma rede social a notícia de um candidato à cargo político prometendo doar o seu primeiro salário caso fosse eleito à "crianças defeituosas". A pessoa que postou a notícia não parece ter ficado no mínimo desgostosa com o termo usado e pelo que parece foi assim mesmo que ele, o candidato a cargo público, se referiu à essas crianças. 

Eu já debati o uso do termo ''especial'' para crianças com deficiência e concordei que apesar de fugir parcialmente da realidade por razões nobres e/ou filosóficas eu não vi qualquer outra razão mais significativa para evitar o seu uso porque o que importa é a associação entre a palavra ou símbolo e o seu significado. Se a maioria das pessoas compreenderem o uso deste termo ao associa-lo à "crianças"(adolescentes, adultos e idosos) com deficiência então não haverá a necessidade de se evita-lo porque a verdade factual da deficiência continuará em evidência, afinal não é tudo aquilo que é especial que será benignamente especial. Além de manter o significado o termo ainda resolve outro problema ao evitar termos estigmatizantes ou mesmo puramente grosseiros. 

Então eu me perguntei onde é que devem existir crianças perfeitas, bem porque elas  não parecem ser muito comuns não é? 


Imperfeição também é outro termo, muito próximo de defeito, que não é recomendado neste caso, e pelas mesmas razões. 

Deficiente é neutro, mais factual, tem praticamente a mesma intenção semântica que defeito, isto é, a ideia ou significado, e no entanto não é grosseiro, não soa grosseiro e não será interpretado grosseiramente  de maneira quase universal. Deficiente é um eufemismo perfeito pra esta situação ainda que também recomende o uso do termo especial. Talvez os dois possam ser usados ao mesmo tempo criando uma composição mais vencedora. A ideia de deficiente passa a ideia factualmente correta que o indivíduo portador de deficiência não pediu pra nascer ou ficar assim, tirando-lhe desnecessária e equivocada culpa por sua situação. A ideia de defeituoso por outro lado parece mais endógena, quase que colando à identidade fundamental do ser em questão, como se fosse indissociável de sua particularidade, isto é, de sua deficiência, e claro, tendo como esperado resultado em auto-culpabilização. 

Por que especial??

Ninguém pede pra nascer sem um braço ou com deficiência intelectual (na verdade a própria ideia de deficiência intelectual tem muito mais nuances em seu espectro qualificativo porque afinal de contas pessoas intelectualmente perfeitas são bastante raras... Seriam elas sábias??). O melhor que podemos fazer é o uso deste termo até porque a deficiência tende a moldar o comportamento das pessoas fazendo-as mais solidárias, empáticas e prestativas. Seria até interessante analisar se isso de fato tende a acontecer com grande frequência. Pra mim não faz mal nenhum em me acostumar com este termo contextualizado nesses casos. 

Novamente como conclusão, aquilo que já havia comentado antes. O que mais importa é o uso perfeccionista das palavras e seus significados nos mais diversos contextos e se houver a possibilidade de evitar o uso de termos chulos tanto melhor. Você não precisa ofender ninguém pra dizer verdades. Esta associação entre verdade e sentimentos ruins ou de apreensão precisa ser revisada e se possível modificada para que se possa tolerar as verdades ou factualidades de maneira menos histérica e mais correta.

Bicha ou homossexual?

Portanto voltando a conclusão do inicio  para fechar este texto. Quem deliberadamente usa termos pejorativos para se referir àqueles que julga como inferiores a si é provável de ser mais sádico. E mais, eu mesmo me vejo caindo na tentação de esfolar verbalmente os meus desafetos. Isso significa que também tenho que começar por mim mesmo a melhorar minhas abordagens.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Eufemismos semanticamente precisos

Dizer a verdade é o mesmo que ser grosseiro??

Não.

A função da compreensão factual é entender sobre algo e não de ofender. A ofensa se consiste em uma intrusão emocionalmente equivocada e no final das contas tende a ter pouco efeito no mundo real.

O clássico caso dos brancos (broncos) nacionalistas que tem passado duas a três décadas falando mal porém de modo factualmente correto, a nível superficial, sobre os seus algozes, imaginários e reais, e no entanto a inércia tem prevalecido desde então. Tal como um divã em que cidadãos comuns da raça branca se prostram a confessar as suas frustrações e medos racionalmente coesos (e outros nem tanto) em sites e blogues direcionados a este público que parecem funcionar exatamente desta maneira e sem encontrar qualquer solução para os seus problemas. 

Falar mal ou "a verdade" não tem adiantado muito para os broncos nacionalistas. E então, o que fazer?

É justamente aquilo que falta, fazer.

Em tempos de mordaça politicamente correta tem-se demonizado os eufemismos como se fossem os reais culpados desta situação.

Categorizações não são apenas positivas mas também qualitativamente negativas. Por exemplo o caso dos seres que nascem com algum tipo de retardamento ou déficit em amadurecimento em alguma particularidade. Antes chamava-se um cadeirante ou portador de deficiência locomotora de "aleijado". Um termo abusivo, excessivo e moralmente estúpido. Aleijado é uma ofensa e não uma simples descrição categórica. É um excesso absolutamente inútil. 

No entanto alguns eufemismos podem ser  mais polêmicos por exemplo o termo "especial" especialmente para pessoas com deficiência mental. Ainda que no final pode-se aprender a associar o termo às condições deficitárias, pra muitos, também ocorre um abuso próximo a uma espécie de humor negro ou deboche porque apesar de todas as boas intenções uma deficiência mental, motora ou biológica continuará sendo uma deficiência. No entanto podemos recorrer à minha ideia quanto a amoralidade das palavras abstratas e portanto "especial" pode facilmente ser percebido neste contexto de uma maneira particularmente qualitativa e não como usualmente fazemos em outros contextos.

O fato é que eufemismos versus dizer a verdade é uma falsa dicotomia e portanto são perfeitamente cambiáveis. Não são como uma dicotomia ''água e óleo'', em que um não pode ocupar o mesmo espaço que o outro.

Para dizer a verdade "limpa" de considerações afetivas e portanto puramente cognitiva é necessário ser grosseiro ou mesmo insolente??

É habitué desde a muito comparar a população negra com primatas. Primeiramente todos nós somos primatas, isto é, um tipo de primata, ou ainda melhor, de animais. Segundo que de fato existem populações humanas que passaram por menos processos seletivos e continuaram olhando como os primeiros seres humanos. O negro subsaariano é metaforicamente falando como um barro enquanto que o branco europeu é como uma jarra. O barro é a matéria prima. A jarra é o produto modificado do barro. Ou outra metáfora, o negro é como a laranja. O branco é como o suco de laranja. Um foi menos modificado que o outro. Essas observações não deveriam ser encaradas de modo histérico pois não há nada de ofensivo olhar mais como um primata se assim somos todos e no final continuamos a continuaremos a ser seres vivos, enquanto continuidades biologicamente recombinantes e divergentes.


Não é ofensa parecer com um animal porque somos animais, primordialmente falando... 

Portanto existem dois fatores nesta situação 

Eufemismos não buscam mascarar a realidade necessariamente mas quando são usados sabiamente podem ser muito mais precisos do que qualquer ofensa disfarçada de "apenas dizer a verdade".


Ser sincero não significa necessariamente de ser factualmente correto. 

O bom uso do eufemismo obviamente visa criar a melhor composição de descrição factual sem a necessidade de excessos tanto para o lado afetivo ou empático que comumente resulta na mentira quanto para o lado cognitivo que usa a desculpa da descrição lógica para ofender de maneira gratuita, contraproducente e excessiva.