Kim Jong Un está certo sobre alguma coisa??
Essa pergunta pode parecer absurda especialmente para largas instâncias do espectro político-ideológico, porque se tratando de um ditador sanguinário e cruel, é de se esperar que, conclusivamente, ele seja um sujeito completamente equivocado quanto às suas crenças ou valores e trajetória de vida. Sua balança moral se, por uma análise mais racional*, pende inexoravelmente para um julgamento duro, de acordo com a sua conduta durante o seu ciclo de existência. No entanto, mesmo que não seja necessariamente relevante saber no que ele está certo, se em termos morais ou factuais, é relevante saber que ele está, em relação a, pelo menos, alguma coisa. Porque qualquer ser humano está, mesmo o mais cruel ou insano de nós. Mesmo alguém que está delirando no meio da rua entregue a uma psicose fora de controle, ou que acumula um currículo macabro de milhões de mortes indiretas, tal como costuma acontecer com um ditador cruel. Ainda assim, é racional entender que, mesmo um sujeito muito impiedoso, como o do exemplo, vai estar certo sobre alguma coisa, por ser possível ter uma perspectiva conclusiva sobre determinado sujeito, grupo ou ideologia, mas, ao mesmo tempo, conseguir abarcar outras perspectivas, como aquela em que, se conclui, com base em uma universalidade humana: de que todo sujeito de nossa espécie que é minimamente funcional em termos cognitivos, independente do quão mau ou insano possa ser, ainda está certo sobre alguma coisa. Ou mesmo de se buscar esmiuçar em detalhes quais seriam os pontos não-equivocados.
E isso também inclui grupos ou ideologias...
Essa é a diferença entre sempre se buscar por uma perspectiva conclusiva e binária e de buscar ampliar o rol de perspectivas sobre tudo, sem que essa adição anule ou reduza a importância das mais hierarquicamente importantes ou relevantes para o nosso discernimento.
De: se Kim Jong Un pode estar certo sobre algo, ele continua sendo um facínora com muito sangue nas mãos.
Ou de também: se a ideologia dominante da Coreia do Norte é conclusivamente desprezível, ainda podem existir, ou existem aspectos sensatos, por exemplo, a ênfase na coletividade sobre o individualismo, o oposto do que acontece, atualmente, no mundo ocidental...
Mesmo nesse aspecto, é factual ponderar que é apenas primariamente positivo, já que o coletivismo típico de uma sociedade totalitária, como essa, significa a total submissão do indivíduo ao coletivo... Portanto, mesmo um aspecto ou ângulo específico sobre certa ideologia, sociedade ou indivíduo, pode conter mais complexidade ou variação de qualidade.
* A moralidade, a partir de um conceito mais objetivo, pode ser determinada como tudo o que é definido como "certo", "negociável" e "errado", primeiramente de acordo com as necessidades de cada indivíduo ou grupo. Então, a partir de um conceito mais universal, pode ser definida como tudo o que é imprescindivelmente necessário ou inevitável de ser praticado por um indivíduo ou grupo visando sua própria sobrevivência, o que exclui disfunções orgânicas ou mentais da mente humana em que essa regra lógica é constantemente quebrada, tal como no caso de um transtorno de personalidade antissocial, em que o certo e o errado não são determinados pela ponderação, mas pela falta da mesma, do agir de maneira extrema ou cruel sem necessidade, além do desejo sádico de agir assim...
Um exemplo muito relevante que tem uma influência extrema no mundo atual: o nazismo e a crítica tipicamente extremista e binária que se faz sobre ele e sobre outros tópicos aos quais se relaciona variavelmente...
Está sempre errado?? Tudo o que defende ou tudo o que pregou??
Amar a própria raça ou etnia, um exemplo do que pregou, não está errado. Enfatizar os "bons costumes", especialmente os mais objetivamente certos, como uma constituição familiar estável, não está de todo errado. Mesmo quanto a certas crenças de caráter mais político e contextual, por exemplo, o ódio ao povo judeu, errou muito mais em seu excesso de generalização do que, como afirmam a grande maioria dos "anti nazistas", de estar completamente errado, como se séculos de perseguição a esse povo não tivessem qualquer respaldo lógico com base em suas atitudes, especialmente de suas "elites" político-econômicas. E sem que isso tenha que resultar ou retornar a uma conclusão extremista ou binária de: "se os nazistas não estavam totalmente errados sobre os judeus, então, estavam totalmente certos"...
O método das múltiplas perspectivas, característico de uma abordagem mais racional, é basicamente o de aprender a detectar e compreender nuances, justamente o que mais falta quando, em um debate, X afirma que XX está (totalmente) certo e Y afirma que está (totalmente) errado... É mais uma discussão inútil que não chega a lugar nenhum ou se chega é a um lugar de ignorância e distorção do que de esclarecimento.
Não temos que odiar um povo inteiro, mas também não devemos adorá-lo de maneira acrítica, principalmente se não há razão para fazê-lo.
Não temos que odiar nossa raça ou etnia ou odiar outras raças ou etnias. Mas também não temos que abraçar extremismos positivos ou negativos sobre as nossas ou as dos outros.
Se eu escolho X, não significa que tenha que excluir totalmente Y.
É possível concluir que Kim Jong Un ou Adolf Hitler estão certos sobre alguma coisa, como todo ser humano está, e sem que isso signifique adorá-los, e mesmo se devemos detestá-los. E o mesmo pode ser dito sobre qualquer ideologia...
Pois o que mais nos afeta negativamente, até hoje em dia, é justamente esses extremismos binários se passando como "normalidades", se revezando no poder e disputando territórios, ao invés de serem identificados pelo que são: como manifestações indiscutíveis de irracionalidades aplicadas...
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